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DBT-PTSD, Ciência Viva e a Chegada de Martin Bohus ao Brasil


Amanhã, 27 de janeiro, o Brasil vivencia um momento histórico no campo da psicoterapia do trauma. Pela primeira vez, o país recebe oficialmente um treinamento conduzido por Martin Bohus, psiquiatra, pesquisador e um dos principais responsáveis pela consolidação internacional da DBT-PTSD (Dialectical Behavior Therapy for Posttraumatic Stress Disorder), um dos modelos mais robustos já desenvolvidos para o tratamento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo, especialmente quando associado a traumas interpessoais precoces.


A DBT Paraná, representada por sua direção, equipe clínica e alunos, estará presente nesse encontro que não é apenas formativo, mas histórico, científico e ético.


Por que isso importa, e muito


Durante décadas, pessoas com histórico de traumas na infância, frequentemente acompanhados de desregulação emocional grave, dissociação, comportamentos autolesivos e sofrimento relacional profundo, foram sistematicamente excluídas dos principais estudos de tratamento para PTSD. Não porque não sofressem, mas porque eram consideradas “complexas demais”.


A ciência do trauma avançou quando passou a fazer a pergunta correta:

“E se o problema não for o paciente, mas o modelo terapêutico?”

Foi a partir dessa pergunta que emergiu a DBT-PTSD.


DBT-PTSD: quando a complexidade deixa de ser exclusão e passa a ser alvo terapêutico


Desenvolvida inicialmente no Central Institute of Mental Health, em Mannheim, a DBT-PTSD nasce da integração rigorosa entre:


  • Os princípios estruturais da DBT de Marsha Linehan

  • Intervenções trauma-focadas baseadas em evidências

  • Estratégias derivadas da Acceptance and Commitment Therapy e da Compassion Focused Therapy


Não se trata de “adicionar exposição” à DBT, nem de “estabilizar indefinidamente antes de tratar o trauma”. A DBT-PTSD rompe essa falsa dicotomia.


Os estudos conduzidos por Bohus e colaboradores demonstraram, de forma consistente, que pacientes com PTSD complexo, inclusive com critérios para Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) e comportamentos autolesivos ativos, podem ser tratados de maneira eficaz, segura e ética, quando o tratamento respeita:

  • A hierarquia de alvos

  • A função do comportamento

  • A necessidade simultânea de aceitação e mudança


Ensaios clínicos randomizados mostraram:

  • Reduções significativas dos sintomas de PTSD, com tamanhos de efeito elevados

  • Menores taxas de abandono em comparação a tratamentos trauma-focados tradicionais

  • Melhora sustentada em vergonha, culpa, raiva, dissociação e autoimagem

  • Evidências de que reduzir dissociação precocemente aumenta a eficácia do tratamento subsequente


Isso não é opinião. É ciência replicada.


O que está em jogo não é apenas técnica, é uma mudança de paradigma


A chegada desse treinamento ao Brasil representa mais do que atualização profissional. Representa um reposicionamento ético:


  • Pessoas com trauma complexo não precisam ser “preparadas para merecer tratamento”

  • A desregulação emocional não é obstáculo à terapia, é alvo terapêutico

  • A DBT-PTSD mostra que é possível tratar trauma sem abandonar pacientes no momento em que mais precisam de sustentação clínica


Esse modelo não suaviza o sofrimento, não romantiza o trauma e não promete atalhos.Ele oferece algo mais raro: estrutura, clareza e esperança baseada em dados.


Estar presente nesse marco não é casual. A DBT Paraná construiu sua trajetória sustentada por:

  • Formação rigorosa

  • Compromisso com evidência científica internacional

  • Adaptação ética e responsável à realidade clínica brasileira


Participar desse momento é reafirmar um posicionamento claro:

o tratamento do trauma precisa ser acessível, baseado em ciência e comprometido com os casos mais complexos, não apenas com os mais “fáceis”.

O Brasil entra, oficialmente, no diálogo internacional mais avançado sobre trauma complexo. E esse diálogo exige responsabilidade, estudo contínuo e fidelidade aos princípios que sustentam a prática clínica de excelência.


A DBT-PTSD não é uma promessa. É um modelo testado, refinado e vivo.

E agora, ele está aqui.



Referências Científicas


Bohus, M., Dyer, A. S., Priebe, K., Krüger, A., Kleindienst, N., Schmahl, C., Niedtfeld, I., & Steil, R. (2013). Dialectical behaviour therapy for post-traumatic stress disorder after childhood sexual abuse in patients with and without borderline personality disorder: A randomized controlled trial. Psychotherapy and Psychosomatics, 82(4), 221–233. https://doi.org/10.1159/000348451


Bohus, M., Kleindienst, N., Hahn, C., Müller-Engelmann, M., Ludäscher, P., Steil, R., Fydrich, T., Kuehner, C., Resick, P. A., Stiglmayr, C., Schmahl, C., & Priebe, K. (2020). Dialectical behavior therapy for posttraumatic stress disorder (DBT-PTSD) compared with cognitive processing therapy (CPT) in complex presentations of PTSD in women survivors of childhood abuse: A randomized clinical trial. JAMA Psychiatry, 77(12), 1235–1245. https://doi.org/10.1001/jamapsychiatry.2020.2148


Bohus, M., & Priebe, K. (2018). DBT-PTSD: A treatment programme for complex PTSD after childhood abuse. In M. A. Swales (Ed.), The Oxford Handbook of Dialectical Behaviour Therapy. Oxford University Press. https://doi.org/10.1093/oxfordhb/9780198758723.013.48


Bohus, M., Schmahl, C., Fydrich, T., Steil, R., Müller-Engelmann, M., Herzog, J., Ludäscher, P., Kleindienst, N., & Priebe, K. (2019). A research programme to evaluate DBT-PTSD, a modular treatment approach for complex PTSD after childhood abuse. Borderline Personality Disorder and Emotion Dysregulation, 6, 7. https://doi.org/10.1186/s40479-019-0099-y


Görg, N., Böhnke, J. R., Priebe, K., Rausch, S., Wekenmann, S., Ludäscher, P., Bohus, M., & Kleindienst, N. (2019). Changes in trauma-related emotions following treatment with dialectical behavior therapy for posttraumatic stress disorder after childhood abuse. Journal of Traumatic Stress, 32(5), 764–773. https://doi.org/10.1002/jts.22440


Kleindienst, N., Steil, R., Priebe, K., Müller-Engelmann, M., Lindauer, P., Krause-Utz, A., Friedmann, F., Schmahl, C., Enning, F., & Bohus, M. (2025). Is dissociation predicting the efficacy of psychological therapies for PTSD? Results from a randomized controlled trial comparing DBT-PTSD and CPT. Psychological Medicine, 55, e59. https://doi.org/10.1017/S0033291724003453


Steil, R., Dyer, A., Priebe, K., Kleindienst, N., & Bohus, M. (2011). Dialectical behavior therapy for posttraumatic stress disorder related to childhood sexual abuse: A pilot study of an intensive residential treatment program. Journal of Traumatic Stress, 24(1), 102–106. https://doi.org/10.1002/jts.20617


World Health Organization. (2018). International classification of diseases for mortality and morbidity statistics (11th ed.). WHO.


 
 
 

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