DBT-PTSD, Ciência Viva e a Chegada de Martin Bohus ao Brasil
- Gleidna Santos
- 26 de jan.
- 4 min de leitura

Amanhã, 27 de janeiro, o Brasil vivencia um momento histórico no campo da psicoterapia do trauma. Pela primeira vez, o país recebe oficialmente um treinamento conduzido por Martin Bohus, psiquiatra, pesquisador e um dos principais responsáveis pela consolidação internacional da DBT-PTSD (Dialectical Behavior Therapy for Posttraumatic Stress Disorder), um dos modelos mais robustos já desenvolvidos para o tratamento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo, especialmente quando associado a traumas interpessoais precoces.
A DBT Paraná, representada por sua direção, equipe clínica e alunos, estará presente nesse encontro que não é apenas formativo, mas histórico, científico e ético.
Por que isso importa, e muito
Durante décadas, pessoas com histórico de traumas na infância, frequentemente acompanhados de desregulação emocional grave, dissociação, comportamentos autolesivos e sofrimento relacional profundo, foram sistematicamente excluídas dos principais estudos de tratamento para PTSD. Não porque não sofressem, mas porque eram consideradas “complexas demais”.
A ciência do trauma avançou quando passou a fazer a pergunta correta:
“E se o problema não for o paciente, mas o modelo terapêutico?”
Foi a partir dessa pergunta que emergiu a DBT-PTSD.
DBT-PTSD: quando a complexidade deixa de ser exclusão e passa a ser alvo terapêutico
Desenvolvida inicialmente no Central Institute of Mental Health, em Mannheim, a DBT-PTSD nasce da integração rigorosa entre:
Os princípios estruturais da DBT de Marsha Linehan
Intervenções trauma-focadas baseadas em evidências
Estratégias derivadas da Acceptance and Commitment Therapy e da Compassion Focused Therapy
Não se trata de “adicionar exposição” à DBT, nem de “estabilizar indefinidamente antes de tratar o trauma”. A DBT-PTSD rompe essa falsa dicotomia.
Os estudos conduzidos por Bohus e colaboradores demonstraram, de forma consistente, que pacientes com PTSD complexo, inclusive com critérios para Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) e comportamentos autolesivos ativos, podem ser tratados de maneira eficaz, segura e ética, quando o tratamento respeita:
A hierarquia de alvos
A função do comportamento
A necessidade simultânea de aceitação e mudança
Ensaios clínicos randomizados mostraram:
Reduções significativas dos sintomas de PTSD, com tamanhos de efeito elevados
Menores taxas de abandono em comparação a tratamentos trauma-focados tradicionais
Melhora sustentada em vergonha, culpa, raiva, dissociação e autoimagem
Evidências de que reduzir dissociação precocemente aumenta a eficácia do tratamento subsequente
Isso não é opinião. É ciência replicada.
O que está em jogo não é apenas técnica, é uma mudança de paradigma
A chegada desse treinamento ao Brasil representa mais do que atualização profissional. Representa um reposicionamento ético:
Pessoas com trauma complexo não precisam ser “preparadas para merecer tratamento”
A desregulação emocional não é obstáculo à terapia, é alvo terapêutico
A DBT-PTSD mostra que é possível tratar trauma sem abandonar pacientes no momento em que mais precisam de sustentação clínica
Esse modelo não suaviza o sofrimento, não romantiza o trauma e não promete atalhos.Ele oferece algo mais raro: estrutura, clareza e esperança baseada em dados.
Estar presente nesse marco não é casual. A DBT Paraná construiu sua trajetória sustentada por:
Formação rigorosa
Compromisso com evidência científica internacional
Adaptação ética e responsável à realidade clínica brasileira
Participar desse momento é reafirmar um posicionamento claro:
o tratamento do trauma precisa ser acessível, baseado em ciência e comprometido com os casos mais complexos, não apenas com os mais “fáceis”.
O Brasil entra, oficialmente, no diálogo internacional mais avançado sobre trauma complexo. E esse diálogo exige responsabilidade, estudo contínuo e fidelidade aos princípios que sustentam a prática clínica de excelência.
A DBT-PTSD não é uma promessa. É um modelo testado, refinado e vivo.
E agora, ele está aqui.
Referências Científicas
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