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Entendendo o Trauma Complexo: Uma Abordagem Profunda e Transformadora

Atualizado: há 22 horas

O trauma complexo é uma das condições mais devastadoras da saúde mental. Diferente do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) clássico, que geralmente resulta de um único evento traumático, o trauma complexo é consequência de exposição prolongada a situações adversas. Isso pode incluir abuso infantil, violência crônica, negligência emocional ou abandono (Herman, 1992/2015).


O que caracteriza o trauma complexo?


Pacientes que vivenciam esse tipo de sofrimento não apresentam apenas lembranças dolorosas do passado. Eles carregam marcas profundas na forma de se relacionar consigo mesmos e com o mundo. Os sintomas mais comuns incluem:


  • Desregulação emocional persistente: dificuldade em lidar com emoções intensas, oscilando entre explosões de raiva, tristeza profunda e entorpecimento emocional.

  • Sentimento crônico de vazio e desesperança.

  • Dificuldades interpessoais graves: problemas em confiar nos outros, medo constante de abandono ou rejeição.

  • Dissociação: desconexão de pensamentos, memórias ou da própria identidade como forma de autoproteção.

  • Vergonha, nojo e culpa intensas relacionadas à história de vida.


Quais transtornos estão mais associados ao trauma complexo?


Embora qualquer pessoa possa desenvolver sintomas após vivências traumáticas, algumas condições psiquiátricas estão particularmente ligadas ao trauma complexo, incluindo:


  • Transtorno de Personalidade Borderline (TPB): caracterizado por instabilidade emocional, relacionamentos intensos e muitas vezes turbulentos, além de risco elevado de comportamentos autolesivos.

  • Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) e TEPT Complexo (TEPT-C).

  • Transtornos dissociativos.

  • Transtornos depressivos e ansiosos graves, frequentemente resistentes a tratamentos convencionais.


Tratamentos Eficazes para o Trauma Complexo


A Terapia Comportamental Dialética (DBT), criada por Marsha Linehan, revolucionou o tratamento do TPB, trazendo redução consistente de comportamentos suicidas e autolesivos (Linehan, 1993/2015). No entanto, permanecia a grande questão clínica: quando e como tratar o trauma em pacientes de alto risco?


A resposta surgiu com o DBT-PTSD (Dialectical Behavior Therapy for Posttraumatic Stress Disorder), desenvolvido por Martin Bohus e sua equipe no Instituto Central de Saúde Mental de Mannheim, Alemanha. Diferente da DBT tradicional, que deixa o trabalho direto com trauma apenas para estágios avançados, o protocolo DBT-PTSD integra exposição e ressignificação já na fase 1, assim que a segurança mínima está estabelecida.


Os Pilares do Protocolo DBT-PTSD


Os pilares do DBT-PTSD incluem:


  • Exposição narrativa do trauma de forma gradual e segura.

  • Mindfulness corporal e emocional, ajudando o paciente a permanecer presente diante de gatilhos.

  • Autocompaixão e ressignificação, transformando a relação com as memórias dolorosas.

  • Estratégias clássicas da DBT para tolerância ao mal-estar, regulação emocional e efetividade interpessoal.


Em pouco mais de uma década, o DBT-PTSD saiu de um estudo piloto inovador (Bohus et al., 2013) para se tornar um protocolo consolidado internacionalmente. Ensaios clínicos publicados em periódicos de alto impacto, incluindo o JAMA Psychiatry (Bohus et al., 2020), demonstram:


  • Redução significativa dos sintomas de TEPT.

  • Menor taxa de abandono comparado a outras terapias focadas em trauma.

  • Eficácia mesmo em pacientes com dissociação grave (Kleindienst et al., 2016).

  • Superioridade em relação à Cognitive Processing Therapy (CPT) (Bohus et al., 2020).


Recentemente, um estudo naturalístico hospitalar em 2025 ampliou ainda mais as evidências, aplicando o DBT-PTSD em pacientes internados com TEPT grave e comorbidades (Kamstra et al., 2025).


Protocolo de DBT: DBT-PTSD no Brasil


Como desdobramento prático do movimento científico em Trauma, a DBT Paraná realizará, em junho de 2026, um curso ministrado por MSc. Gleidna Santos, sobre o Protocolo de DBT para Traumas Complexos: DBT-PTSD baseado no modelo desenvolvido por Buhus e sua equipe. O curso será voltado a profissionais que buscam mais do que conhecimento introdutório para o Transtorno de Estresse Pós Traumático (PTSD).


A proposta é oferecer um curso com:

  • aprofundamento técnico do modelo

  • aplicação clínica em casos complexos

  • tomada de decisão baseada em evidência

  • fidelidade aos princípios estruturais da DBT


Trata-se de um espaço de formação para quem deseja atuar com responsabilidade e precisão no tratamento do PTSD no Brasil.


Um novo momento para a PTSD no Brasil


O tratamento do trauma complexo é essencial para a recuperação e o bem-estar dos pacientes. Com modelos baseados em evidência como a DBT-PTSD, torna-se possível oferecer não apenas esperança, mas um caminho estruturado, seguro e clinicamente consistente para a transformação.


O avanço da DBT-PTSD no país não depende apenas de marcos isolados, mas da capacidade de transformar conhecimento em prática clínica qualificada, com responsabilidade e fidelidade ao modelo.


A DBT Paraná assume esse compromisso: contribuir ativamente para a formação de profissionais e para a consolidação de uma prática clínica baseada em evidência no contexto brasileiro.


É nesse cenário que, em junho de 2026, será realizada o curso voltado ao Protocolo de DBT para Traumas Complexos: DBT-PTSD, voltado a profissionais que buscam aprofundamento técnico, precisão clínica e atuação em casos complexos.

Mais do que acompanhar esse movimento, trata-se de sustentar, no Brasil, uma prática clínica consistente, ética e cientificamente fundamentada, comprometida com a formação qualificada de profissionais e com a disseminação responsável de práticas baseadas em evidências científicas.



Referências


Bohus, M., Dyer, A. S., Priebe, K., Krüger, A., Kleindienst, N., Schmahl, C., & Steil, R. (2013). Dialectical behaviour therapy for post-traumatic stress disorder after childhood sexual abuse: A pilot study. Psychotherapy and Psychosomatics, 82(4), 221–223.

Kleindienst, N., Priebe, K., Görg, N., Dyer, A. S., Steil, R., Lyssenko, L., & Bohus, M. (2016). Dialectical behaviour therapy for posttraumatic stress disorder: Effects of dissociation and childhood trauma. European Journal of Psychotraumatology, 7(1), 293–297.

Bohus, M., Kleindienst, N., Hahn, C., Müller-Engelmann, M., Ludäscher, P., Steil, R., … & Fydrich, T. (2020). DBT-PTSD vs. CPT in complex PTSD: A randomized clinical trial. JAMA Psychiatry, 77(12), 1235–1245.

Bohus, M., & Stoffers-Winterling, J. (2021). Dialectical behavior therapy for PTSD. European Psychologist, 26(3), 219–231.

Kamstra, P., Zijlstra, B., De Mooij, L., Van Dijk, M., Van den Bosch, L. M. C., & Bohus, M. (2025). Inpatient DBT combined with trauma-focused therapy for PTSD and BPD symptoms: Study design of the Trauma Therapy Study. Frontiers in Psychiatry, 16, 1538149.

 
 
 

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