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O que é RO DBT?

Terapia Comportamental Dialética Radicalmente Aberta (RO DBT):

A Terapia Comportamental Dialética Radicalmente Aberta (Radically Open Dialectical Behavior Therapy – RO DBT) é um tratamento transdiagnóstico desenvolvido para indivíduos que apresentam padrões desadaptativos de sobrecontrole (maladaptive overcontrol). Diferentemente de intervenções voltadas ao controle insuficiente, a RO DBT tem como alvo déficits em abertura, flexibilidade e sinalização social que contribuem para isolamento interpessoal e sofrimento psicológico crônico. Este artigo apresenta os fundamentos conceituais do modelo, sua base biossocial, os principais mecanismos de mudança e o estado atual das evidências empíricas, incluindo dados do estudo RefraMED.

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A RO DBT foi desenvolvida por Thomas R. Lynch como uma adaptação da Terapia Comportamental Dialética tradicional, originalmente proposta por Marsha M. Linehan, para tratar indivíduos caracterizados por sobrecontrole desadaptativo (Lynch, 2018a, 2018b).

 

Enquanto a DBT tradicional foi desenvolvida para populações com desregulação emocional e controle insuficiente (undercontrol), a RO DBT destina-se a indivíduos com controle inibitório excessivo, rigidez comportamental e déficits na sinalização social.

 

A RO DBT é um tratamento manualizado, estruturado e baseado em evidências, concebido como intervenção transdiagnóstica para transtornos associados ao espectro do sobrecontrole, incluindo depressão crônica/refratária, anorexia nervosa e transtorno de personalidade obsessivo-compulsiva (Lynch, 2018a; Lynch & Cheavens, 2008).

Dicionário francês

O Modelo de Sobrecontrole Desadaptativo

O sobrecontrole não constitui um diagnóstico formal, mas um estilo de enfrentamento caracterizado por:

  1. Inibição emocional excessiva

  2. Elevada necessidade de controle e previsibilidade

  3. Rigidez cognitiva e comportamental

  4. Déficits na sinalização social pró-social

Segundo o modelo biossocial da RO DBT (Lynch, 2018a), o sobrecontrole emerge da interação entre:

  • Temperamento biológico caracterizado por alta sensibilidade à ameaça e baixo processamento de recompensa;

  • História de reforçamento social contingente ao desempenho, perfeccionismo e autocontenção.

Domínios Centrais do Sobrecontrole

O modelo identifica quatro déficits nucleares:

1. Baixa Abertura/Receptividade

Indivíduos com sobrecontrole apresentam resistência a feedbacks corretivos, hipervigilância a ameaças e evitação de experiências não planejadas. Essa rigidez compromete aprendizagem social e adaptação contextual (Lynch, 2018a).

2. Baixa Flexibilidade Comportamental

Caracteriza-se por hiperperfeccionismo, necessidade compulsiva de estrutura, moralidade rígida e comportamento regido por regras. A literatura sugere que essa inflexibilidade está associada a psicopatologia internalizante crônica (Aldao et al., 2010).

3. Expressão Emocional Inibida ou Incongruente

Botão de controle branco

A supressão emocional excessiva está associada a prejuízos interpessoais e aumento de sofrimento psicológico (English & John, 2013; Mauss et al., 2011). Expressões emocionais incongruentes aumentam percepções de inautenticidade (Kernis & Goldman, 2006).

4. Déficits em Sinalização Social e Conexão

O modelo enfatiza que o problema central não é ausência de desejo de vínculo, mas falhas na sinalização pró-social que facilitam coesão grupal. A redução da expressividade facial e vocal pode levar a ostracismo e solidão, exacerbando sintomas depressivos (Boone & Buck, 2003).

Mecanismo Central de Mudança: Sinalização Social

A RO DBT é o primeiro tratamento comportamental manualizado a colocar explicitamente a sinalização social como mecanismo central de mudança terapêutica (Lynch, 2018a).

Baseando-se em evidências da neurociência social, o modelo postula que:

  • A coesão social é um regulador primário do bem-estar;

  • Expressões emocionais autênticas promovem confiança interpessoal;

  • Supressão emocional crônica reduz proximidade social (English & John, 2013).

 

O terapeuta em RO DBT é treinado para observar microexpressões, alterações sutis na prosódia vocal, postura corporal e padrões de resposta verbal, interpretando-os como sinais sociais relevantes para intervenção.

Estrutura do Tratamento

A RO DBT inclui:

  • Sessões individuais semanais

  • Treinamento de habilidades em grupo

  • Consulta de equipe para terapeutas

 

As habilidades ensinam:

  • Abertura radical

  • Flexibilidade comportamental

  • Sinalização emocional autêntica

  • Humildade e disposição para aprender

Abertura Radical

A Abertura Radical constitui o princípio filosófico central do modelo (Lynch, 2018a).

Define-se como a disposição ativa para questionar convicções pessoais diante de novas informações, especialmente quando sinais sugerem que a percepção pode estar incompleta.

Diferentemente da atenção plena tradicional, a Abertura Radical envolve:

  • Busca intencional por feedback corretivo

  • Disposição para estar errado

  • Flexibilidade diante de ameaça percebida

Essa postura está associada à redução da rigidez cognitiva e melhora da adaptação social.

Evidências Empíricas

A eficácia da RO DBT foi investigada em múltiplos contextos clínicos.

O estudo RefraMED (Lynch et al., 2019), ensaio clínico randomizado multicêntrico no Reino Unido, avaliou RO DBT para depressão crônica resistente ao tratamento. Os resultados indicaram reduções clinicamente significativas em sintomas depressivos ao final do tratamento, com efeitos mantidos em seguimento de longo prazo.

Estudos preliminares também sugerem eficácia em anorexia nervosa e transtornos de personalidade caracterizados por sobrecontrole (Lynch et al., 2013).

Diferenças em Relação a Outras Terapias

A RO DBT difere de abordagens como:

  • Terapia Comportamental Dialética tradicional

  • Terapia de Aceitação e Compromisso

  • Terapia Focada na Compaixão

Por priorizar explicitamente:

  • Conexão social como regulador primário

  • Sinalização social como mecanismo de mudança

  • Tratamento direcionado ao sobrecontrole, não à impulsividade

Conclusão

A RO DBT representa um avanço conceitual no tratamento de transtornos internalizantes crônicos associados ao sobrecontrole. Ao integrar princípios da ciência comportamental, teoria evolutiva e neurociência social, o modelo propõe que a conexão social, mediada por sinalização emocional autêntica e abertura radical, constitui o principal caminho para redução do sofrimento psicológico.

O crescente corpo de evidências, incluindo ensaios clínicos randomizados, sustenta sua relevância como intervenção transdiagnóstica para populações historicamente difíceis de tratar.

No contexto brasileiro, a implementação de intervenções psicoterapêuticas baseadas em evidências para transtornos associados ao sobrecontrole ainda é limitada. A DBT Paraná destaca-se como centro de referência na aplicação clínica da Terapia Comportamental Dialética Radicalmente Aberta (RO DBT), oferecendo tratamento estruturado de acordo com os manuais originais de Thomas R. Lynch. O serviço é fundamentado em princípios de psicologia baseada em evidências, integrando prática clínica, formação profissional e atualização científica contínua. A disponibilização da RO DBT em contexto especializado contribui para ampliar o acesso a intervenções empiricamente sustentadas voltadas a quadros de sobrecontrole desadaptativo, como depressão crônica, anorexia nervosa e transtorno de personalidade obsessivo-compulsiva.

Referências

Aldao, A., Nolen-Hoeksema, S., & Schweizer, S. (2010). Emotion-regulation strategies across psychopathology: A meta-analytic review. Clinical Psychology Review, 30(2), 217–237. https://doi.org/10.1016/j.cpr.2009.11.004

Boone, R. T., & Buck, R. (2003). Emotional expressivity and trustworthiness. Journal of Nonverbal Behavior, 27(3), 163–182.

English, T., & John, O. P. (2013). Understanding the social effects of emotion regulation: The mediating role of authenticity. Journal of Personality and Social Psychology, 105(2), 361–376.

Kernis, M. H., & Goldman, B. M. (2006). A multicomponent conceptualization of authenticity. Advances in Experimental Social Psychology, 38, 283–357.

Lynch, T. R. (2018a). Radically open dialectical behavior therapy: Theory and practice for treating disorders of overcontrol. New Harbinger Publications.

Lynch, T. R. (2018b). The skills training manual for radically open dialectical behavior therapy. New Harbinger Publications.

Lynch, T. R., Hempel, R. J., & Dunkley, C. (2015). Radically open-dialectical behavior therapy for disorders of overcontrol: Signaling matters. American Journal of Psychotherapy, 69(2), 141–162.

Lynch, T. R., Whalley, B., Hempel, R., Byford, S., & Clarke, P. (2019). Refractory depression—Mechanisms and efficacy of radically open dialectical behavior therapy (RefraMED). The Lancet Psychiatry, 6(2), 113–124.*

Mauss, I. B., Shallcross, A. J., Troy, A. S., et al. (2011). Don’t hide your happiness! Positive emotion dissociation and psychological functioning. Journal of Personality and Social Psychology, 100(4), 738–748.*

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