O que é o Transtorno de Personalidade Borderline? Sintomas e Tratamentos Baseados em Evidências
- Gleidna Santos
- há 2 dias
- 16 min de leitura

O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), também conhecido como Transtorno de Personalidade Emocionalmente Instável, é uma condição de saúde mental complexa, frequentemente cercada por mitos, estigmas e informações equivocadas. Apesar de ser associado a intenso sofrimento emocional, o TPB é hoje um dos transtornos psiquiátricos mais estudados do mundo e, diferentemente do que se acreditava décadas atrás, sabemos que ele pode ser tratado de forma eficaz quando o paciente recebe intervenções baseadas em evidências científicas.
Nas últimas décadas, avanços na psicologia clínica, psiquiatria e neurociência transformaram profundamente a compreensão do transtorno. Atualmente, especialistas reconhecem que o TPB não representa uma "falha de caráter" ou um "defeito de personalidade", mas sim uma síndrome complexa marcada principalmente por dificuldades persistentes na regulação das emoções (Linehan, 1993; APA, 2022).
O Que é o Transtorno de Personalidade Borderline?
Segundo o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5-TR), o TPB é caracterizado por um padrão persistente de instabilidade emocional, dificuldades nos relacionamentos interpessoais, alterações na autoimagem e impulsividade significativa, presente em diferentes contextos da vida (APA, 2022).
Entre os sinais mais comuns estão:
Medo intenso de abandono;
Relacionamentos instáveis e marcados por conflitos frequentes;
Oscilações emocionais intensas;
Sensação crônica de vazio;
Dificuldades na construção da identidade;
Comportamentos impulsivos;
Autolesão e comportamento suicida;
Episódios transitórios de dissociação ou paranoia relacionados ao estresse.
No entanto, compreender o borderline exige ir além de uma simples lista de sintomas. Dois pacientes podem receber o mesmo diagnóstico e apresentar experiências de vida bastante diferentes.
Por isso, especialistas contemporâneos defendem que a compreensão do TPB deve incluir a análise dos processos emocionais, cognitivos, comportamentais e interpessoais que sustentam o sofrimento psicológico.
Borderline é Mais Comum em Mulheres?
Historicamente, o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) foi mais frequentemente diagnosticado em mulheres. Entretanto, pesquisas epidemiológicas mais recentes sugerem que homens e mulheres apresentam prevalências semelhantes na população geral ( Bozzatello et al., 2024).
A diferença parece estar menos na frequência do transtorno e mais na forma como seus sintomas se manifestam e são reconhecidos pelos profissionais de saúde (Bozzatello et al. 2024). Em muitos casos, homens com TPB recebem outros diagnósticos, como transtornos relacionados ao uso de substâncias, transtorno explosivo intermitente ou transtorno de personalidade antissocial, enquanto mulheres tendem a ser encaminhadas com maior frequência para avaliação especializada em personalidade (Bozzatello et al., 2024; Johnson et al., 2013). Além disso, expectativas culturais relacionadas ao gênero influenciam diretamente a maneira como o sofrimento emocional é expresso e interpretado clinicamente (Bozzatello et al. 2024).
Como o Borderline Pode Aparecer na Vida Real?
Muitos pacientes homens chegam até nós relatando a dificuldade em se identificar com descrições dos sintomas que traz exemplos majoritariamente em mulheres. Abaixo descrevo como pode aparecer em ambos os sexos.
É importante lembrar que os exemplos abaixo são apenas ilustrativos. Nem toda pessoa com TPB apresentará os sintomas da mesma forma.
1. Medo intenso de abandono
Mulher
O parceiro demora algumas horas para responder uma mensagem. Ela passa o dia inteiro angustiada, envia várias mensagens seguidas, chora, imagina que será abandonada e pode ameaçar terminar a relação antes que seja deixada.
Homem
A namorada diz que vai sair com amigos no final de semana. Ele interpreta isso como rejeição, fica irritado, inicia uma discussão, acusa a parceira de não se importar com ele e se afasta de forma abrupta.
2. Relacionamentos instáveis e marcados por conflitos frequentes
Mulher
Conhece uma nova amiga e, em poucos dias, acredita ter encontrado "a melhor amiga da vida". Após uma pequena decepção, passa a vê-la como falsa, traiçoeira ou completamente decepcionante.
Homem
Inicia um relacionamento amoroso considerando a parceira perfeita. Após uma discussão comum, passa a acreditar que ela nunca o amou e termina impulsivamente o relacionamento.
3. Oscilações emocionais intensas
Mulher
Recebe um elogio pela manhã e sente extrema felicidade. À tarde, recebe uma crítica simples no trabalho e mergulha em tristeza profunda, desespero ou raiva intensa.
Homem
Após um dia aparentemente normal, uma discussão no trânsito desencadeia uma explosão de raiva, seguida por culpa intensa e sentimento de vazio algumas horas depois.
4. Sensação crônica de vazio
Mulher
Mesmo cercada por familiares e amigos, relata sentir um vazio constante, como se algo estivesse faltando dentro dela, levando-a a buscar relacionamentos intensos para preencher esse sentimento.
Homem
Relata sentir-se "desligado da vida", sem propósito ou direção, passando horas em jogos, redes sociais ou consumo de álcool tentando escapar da sensação de vazio.
5. Dificuldades na construção da identidade
Mulher
Muda frequentemente de estilo, valores, objetivos profissionais ou grupos sociais, relatando não saber realmente quem é quando está sozinha.
Homem
Alterna rapidamente entre projetos de vida muito diferentes, por exemplo, querer ser empresário, depois atleta, depois mudar completamente de carreira, sem conseguir manter uma identidade estável.
6. Comportamentos impulsivos
Mulher
Após uma discussão emocional, faz compras excessivas, gasta dinheiro que não possui ou inicia relacionamentos sexuais impulsivos buscando alívio emocional.
Homem
Após sentir rejeição ou raiva, faz uso abusivo de álcool, dirige de forma perigosa, aposta grandes quantias de dinheiro ou se envolve em brigas físicas.
7. Comportamento autolesivo e comportamento suicida
Mulher
Após uma crise emocional intensa relacionada a um relacionamento, realiza cortes superficiais para tentar aliviar a dor emocional ou expressar sofrimento.
Homem
Após sentir-se abandonado ou rejeitado, pode recorrer a comportamentos de alto risco, como dirigir perigosamente, abusar de substâncias ou realizar uma tentativa de suicídio impulsiva.
Importante: os comportamentos autolesivo e suicida nunca devem ser interpretados como "busca de atenção". Em geral, representam tentativas desesperadas de lidar com sofrimento emocional extremamente intenso.
8. Episódios transitórios de dissociação ou paranoia relacionados ao estresse
Mulher
Durante uma discussão intensa com o parceiro, sente como se estivesse observando a cena de fora do próprio corpo ou como se tudo ao redor estivesse irreal.
Homem
Após uma situação de rejeição, passa algumas horas convencido de que colegas estão falando mal dele ou tentando prejudicá-lo, mas essa crença desaparece quando a crise emocional diminui.
As 5 Áreas da Desregulação no Transtorno de Personalidade Borderline
Segundo o modelo biossocial de Linehan e os desenvolvimentos posteriores da literatura internacional, o TPB pode ser compreendido como uma síndrome de desregulação generalizada envolvendo cinco domínios principais (Linehan, 1993; Bohus & Wolf-Arehult, 2013).
1. Desregulação Emocional
É considerada o núcleo central do transtorno.
Caracteriza-se por:
extrema sensibilidade emocional;
respostas emocionais intensas;
rápida escalada da ativação emocional;
dificuldade de retorno à linha de base;
sofrimento emocional persistente.
Na prática clínica, muitos pacientes descrevem a experiência emocional como significativamente amplificada, como no relato: “Sinto tudo em um volume muito maior do que as outras pessoas”.
Do ponto de vista neurobiológico, estudos de neuroimagem funcional sugerem hiperreatividade da amígdala e redução da regulação top-down exercida por regiões pré-frontais envolvidas no controle emocional, o que pode contribuir para dificuldades na modulação de respostas afetivas (Donegan et al., 2003; Schulze et al., 2016; Silbersweig et al., 2007).
Esse padrão é consistente com modelos contemporâneos de desregulação emocional no TPB, nos quais há uma interação entre alta reatividade emocional e déficits nos sistemas de regulação cognitiva e inibitória (Linehan, 1993; Gross, 2015).
2. Desregulação Cognitiva
Sob estresse intenso, o paciente pode apresentar alterações transitórias no processamento cognitivo.
Inclui:
dissociação ( Exemplo: “Fiquei no automático, sem sentir direito o que estava acontecendo”);
despersonalização (Exemplo: “Eu me sentia fora do meu corpo”)
desrealização (Exemplo: “Eu sabia que era real, mas não parecia”);
ideação paranoide transitória (Exemplo: “Eu fiz alguma coisa errada e agora querem me excluir”);
pensamento dicotômico (Exemplo: "tudo ou nada" "08 ou 80");
interpretações distorcidas de situações interpessoais (Exemplo: “Estão me afastando de propósito”).
Importante destacar que essas alterações geralmente são transitórias e dependentes do contexto emocional. Essa característica diferencia o TPB dos transtornos psicóticos primários.
3. Desregulação Comportamental
A desregulação comportamental refere-se à dificuldade de inibir comportamentos impulsivos diante de estados emocionais intensos, especialmente em contextos de alta ativação afetiva.
Ela pode se manifestar por meio de:
autolesão
tentativas de suicídio
abuso de substâncias
compulsão alimentar
comportamento sexual impulsivo
gastos excessivos
explosões agressivas
No modelo da Terapia Comportamental Dialética (DBT), esses comportamentos são compreendidos como estratégias de regulação emocional de curto prazo com altos custos a longo prazo. Ou seja, o problema não é apenas a impulsividade em si, mas o fato de que ela passa a funcionar como uma tentativa imediata e desesperada de escapar de estados emocionais intoleráveis (Linehan, 1993; Linehan, 2015).
O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) está associado a um dos maiores níveis de comportamento suicida entre os transtornos psiquiátricos. Revisões da literatura indicam que aproximadamente 60% a 80% dos indivíduos com TPB apresentam pelo menos uma tentativa de suicídio ao longo da vida, enquanto cerca de 5% a 10% podem evoluir para suicídio consumado (Lieb et al., 2004; Zanarini et al., 2008).
Além disso, o comportamento autolesivo não suicida (NSSI) é altamente prevalente nessa população, sendo observado em uma proporção significativa dos casos clínicos (Klonsky, 2007; Nock, 2009).
4. Desregulação Interpessoal
As dificuldades interpessoais constituem uma característica central do Transtorno de Personalidade Borderline. O medo intenso de abandono, real ou percebido, frequentemente influencia a forma como esses indivíduos interpretam e respondem às interações sociais. Provavelmente é a área que mais gera sofrimento para familiares e parceiros.
Caracteriza-se por:
medo intenso de abandono;
hipervigilância para rejeição;
necessidade intensa de proximidade;
relacionamentos instáveis e caóticos.
alternância entre idealização e desvalorização (Exemplo: Após receber atenção e cuidado de alguém, a pessoa pode idealizar: “Essa pessoa é incrível, nunca ninguém me entendeu assim” Depois de uma frustração pequena. Exemplo: demora para responder. Passa a desvalorizar: “Na verdade ela não liga pra mim”; “Foi tudo mentira”; “Ela é falsa que nem às outras pessoas e vai me abandonar”.
Gunderson descrevia esse domínio como o "marcador interpessoal central" do TPB. Muitos pacientes vivem em um ciclo contínuo de: "Preciso desesperadamente de você" seguido por "Não quero mais você perto de mim" (Gunderson, 2009).
Estudos conduzidos por Bohus e colaboradores, em conjunto com a literatura empírica sobre Transtorno de Personalidade Borderline, descrevem que muitos indivíduos com o transtorno apresentam um intenso desejo de conexão interpessoal, coexistindo com dificuldades significativas para estabelecer e manter relacionamentos estáveis. Esse padrão frequentemente se manifesta em ciclos de aproximação, conflito e afastamento, associados a elevada sensibilidade a sinais de rejeição e ameaça de abandono (Bohus et al., 2004; Linehan, 2015; Lieb et al., 2004).
5. Desregulação do Self (Identidade)
Esta área costuma ser negligenciada por profissionais menos experientes.
Inclui:
autoimagem instável;
sensação de vazio crônico;
ausência de senso consistente de identidade;
mudanças frequentes de objetivos, valores e projetos de vida;
dificuldade de responder à pergunta:
"Quem sou eu?"
Muitos pacientes relatam:
"Não sei quem eu sou quando estou sozinho."
Para diversos autores contemporâneos, especialmente Fonagy, Bateman e Kernberg, a perturbação da identidade representa um dos aspectos mais profundos do TPB.
Por que as 5 áreas são tão úteis para o diagnóstico?
Na minha opinião, elas são clinicamente mais úteis do que ficar simplesmente contando critérios do DSM. Explico-me. Embora o DSM-5-TR estabeleça que o diagnóstico de Transtorno de Personalidade Borderline seja realizado quando o indivíduo apresenta pelo menos cinco dos nove critérios diagnósticos, esse sistema produz uma grande heterogeneidade clínica.
Na prática, dois pacientes podem preencher critérios completamente diferentes e, ainda assim, receber o mesmo diagnóstico. Isso ocorre porque existem numerosas combinações possíveis de cinco critérios entre os nove disponíveis, fazendo com que indivíduos com apresentações clínicas bastante distintas sejam classificados sob o mesmo transtorno.
Por essa razão, diversos autores defendem que a avaliação clínica não deve se limitar à simples contagem de critérios diagnósticos, mas buscar compreender os processos psicológicos centrais que organizam o funcionamento do paciente.
Nesse contexto, o modelo das cinco áreas oferece uma visão mais integrada do funcionamento borderline, permitindo avaliar:
a intensidade da desregulação emocional;
as dificuldades interpessoais predominantes;
as alterações de identidade;
os padrões de impulsividade e comportamentos de risco;
e as alterações cognitivas e dissociativas relacionadas ao estresse.
Essa organização facilita tanto o raciocínio clínico quanto o planejamento do tratamento, aproximando a avaliação dos mecanismos que sustentam o transtorno, e não apenas da presença isolada de sintomas.
Área de Desregulação | Critérios Equivalentes do DSM-5-TR | Foco Clínico na Avaliação |
1. Emocional | Critério 6 (instabilidade afetiva); Critério 8 (raiva intensa/inapropriada) | Sensibilidade emocional elevada, intensa reatividade emocional e lentidão no retorno à linha de base. |
2. Cognitiva | Ideação paranoide/sintomas dissociativos (Critério 9) | Alterações transitórias da percepção e do pensamento relacionadas ao estresse, incluindo ideação paranoide e sintomas dissociativos. |
3. Comportamental | Esforços para evitar abandono (Critério 1) Impulsividade (Critério 4) Comportamento suicida/autolesão (Critério 5) | Comportamentos impulsivos e estratégias desadaptativas de regulação emocional, incluindo esforços para evitar abandono, autolesão, comportamento suicida e outras ações de alto risco. |
4. Interpessoal | Relacionamentos instáveis/idealização e desvalorização (Critério 2) | Padrão de aproximação-afastamento e medo de rejeição. |
5. do Self (Identidade) | Perturbação da identidade (Critério 3) Sentimento crônico de vazio (Critério 7) | Instabilidade da identidade, autoimagem e senso de continuidade do self, frequentemente acompanhados por sentimento crônico de vazio. |
Embora o DSM-5-TR apresente nove critérios diagnósticos para o Transtorno de Personalidade Borderline, diversos autores também organizam esses critérios em domínios clínicos mais amplos para facilitar a compreensão do funcionamento do paciente. Essa organização não substitui os critérios diagnósticos formais, mas constitui uma estratégia útil para formulação de caso, planejamento terapêutico e psicoeducação.
Borderline Tem Tratamento?
Sim.
Uma das maiores mudanças conceituais das últimas décadas foi a compreensão de que o TPB não é necessariamente um transtorno permanente.
Estudos longitudinais sobre o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) indicam um curso clínico mais favorável do que tradicionalmente se supunha, especialmente em relação à remissão sintomática ao longo do tempo.
Pesquisas de seguimento de 10 anos mostram que aproximadamente 85% a 88% dos pacientes com TPB atingem remissão diagnóstica em algum momento do acompanhamento longitudinal, embora nem sempre isso signifique recuperação funcional completa (Zanarini et al., 2006; Zanarini et al., 2010).
Além disso, os dados indicam que:
a impulsividade tende a diminuir com a idade, especialmente sintomas relacionados a comportamentos autodestrutivos e explosividade emocional
a estabilidade interpessoal apresenta melhora gradual ao longo do tempo, embora possa permanecer fragilizada em parte dos casos
a remissão dos critérios diagnósticos ocorre em taxas mais altas do que a recuperação funcional plena
a qualidade de vida tende a melhorar quando há manutenção de tratamento estruturado e acompanhamento contínuo, embora o funcionamento social possa permanecer parcialmente comprometido em alguns pacientes (Gunderson et al., 2011; Zanarini et al., 2010)
Esses achados sugerem que o TPB não segue necessariamente um curso estático ou progressivamente deteriorante, mas sim um padrão de evolução heterogêneo, com redução significativa de sintomas ao longo do tempo, especialmente quando há intervenção terapêutica baseada em evidências.
Receber um diagnóstico de borderline não significa estar condenado ao sofrimento permanente. Estudos longitudinais e revisões clínicas indicam que a maioria dos pacientes com Transtorno de Personalidade Borderline apresenta melhora significativa ao longo do tempo, especialmente quando há acesso a tratamento baseado em evidências.
Quais São os Tratamentos com Maior Evidência Científica?
As principais diretrizes internacionais recomendam a psicoterapia especializada como tratamento de primeira linha para o Transtorno de Personalidade Borderline.
Entre os tratamentos com maior respaldo científico destacam-se:
Terapia Comportamental Dialética (DBT): desenvolvida por Marsha M. Linehan
Mentalization-Based Treatment (MBT): desenvolvida por Peter Fonagy e Anthony Bateman
Transference-Focused Psychotherapy (TFP): desenvolvida por Otto Kernberg
General Psychiatric Management (GPM): desenvolvido por John G. Gunderson
Schema Therapy: desenvolvida por Jeffrey Young
Entre eles, a DBT permanece como o tratamento mais amplamente estudado e validado, demonstrando redução consistente de:
Tentativas de suicídio;
Comportamento autolesivo;
Internações psiquiátricas;
Impulsividade;
Desregulação emocional (Linehan et al., 2006).
As evidências científicas que estabeleceram a DBT como tratamento padrão-ouro para TPB não foram produzidas utilizando apenas psicoterapia individual. Elas foram produzidas utilizando um programa estruturado composto por múltiplos componentes integrados (Linehan, 1993; Linehan et al., 2006).
O Que a Ciência Chama de DBT?
Um aspecto frequentemente pouco discutido no Brasil é que as pesquisas que validaram a DBT como tratamento padrão-ouro para o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) não foram realizadas utilizando apenas técnicas em psicoterapia individual, como frequentemente temos visto no cenário nacional.
O modelo original desenvolvido por Marsha Linehan é um programa de tratamento estruturado, composto por quatro elementos integrados e interdependentes:
1. Psicoterapia Individual
Encontros semanais estruturados, focados na formulação comportamental dos problemas, identificação de comportamentos-alvo e construção de uma vida que valha a pena ser vivida. Na DBT, a terapia individual tem como funções principais a redução de comportamentos de risco, a aplicação da hierarquia de alvos clínicos, a análise em cadeia dos episódios problemáticos e a generalização das habilidades aprendidas para o contexto da vida diária.
2. Treinamento de Habilidades em Grupo
Modalidade estruturada de ensino sistemático de habilidades psicológicas, considerada um dos componentes centrais da DBT.
As habilidades são organizadas em quatro módulos:
Mindfulness;
Regulação emocional;
Tolerância ao mal-estar;
Efetividade interpessoal.
O objetivo é promover repertório comportamental mais flexível, ampliando a capacidade de resposta adaptativa diante de situações emocionalmente intensas.
3. Coaching Entre Sessões
Suporte clínico breve fora do consultório (via telefone ou mensagens, conforme o contrato terapêutico), com foco na aplicação das habilidades em contextos reais de crise.
Sua função principal é ajudar o paciente a generalizar o uso das habilidades aprendidas em grupo para situações do dia a dia, especialmente em momentos de alta ativação emocional, reduzindo comportamentos impulsivos e reforçando alternativas mais eficazes.
4. Equipe de Consulta para Terapeutas
Um componente frequentemente negligenciado no contexto brasileiro, mas considerado essencial no modelo original da literatura internacional. A ausência desse elemento frequentemente resulta em sobrecarga do profissional e, consequentemente, em altas taxas de iatrogenia e rupturas terapêuticas precoces, deixando o paciente desamparado justamente nos momentos de maior vulnerabilidade.
A própria Linehan descreveu a equipe de consulta como "a terapia para o terapeuta", estruturada especificamente para reduzir o burnout, melhorar a tomada de decisão clínica e garantir a estrita fidelidade ao tratamento.
Por Que Isso Importa Para Quem Busca Tratamento?
Pacientes com TPB frequentemente enfrentam:
Crises emocionais intensas;
Comportamentos suicidas e comportamentos de autolesão;
Histórico de rupturas terapêuticas;
Medo extremo de abandono.
Por isso, os principais programas internacionais enfatizam a importância de tratamentos estruturados, equipes treinadas e supervisão contínua. Isso não significa que um terapeuta individual não possa utilizar estratégias da DBT, muitas das quais são úteis em diferentes contextos clínicos. Contudo, quando o objetivo é o tratamento do Transtorno de Personalidade Borderline, as diretrizes internacionais e os estudos de eficácia recomendam a implementação da DBT em seu formato compreensivo, conforme originalmente desenvolvido e validado.
Um Desafio Importante na Implementação da DBT no Brasil
A implementação completa da Terapia Comportamental Dialética (DBT) exige treinamento especializado, supervisão contínua, equipe de consulta entre terapeutas e uma estrutura clínica capaz de oferecer todos os componentes do tratamento. Por esse motivo, muitos profissionais incorporam estratégias da DBT em psicoterapia individual, o que pode ser extremamente útil e produzir benefícios importantes para diferentes demandas clínicas.
Entretanto, é fundamental distinguir essa prática da DBT Compreensiva (Comprehensive DBT). O modelo abrangente, desenvolvido por Marsha Linehan e posteriormente investigado em diversos ensaios clínicos, é aquele cuja eficácia foi demonstrada para o tratamento do Transtorno de Personalidade Borderline. Para pacientes com transtorno de personalidade borderline, especialmente aqueles que apresentam comportamento suicida, autolesão ou crises recorrentes, compreender essa diferença pode ser essencial na tomada de decisão sobre o tratamento.
Nesse contexto, é relevante que pacientes e familiares tenham acesso a informações claras sobre o tipo de intervenção oferecida, a qual programa de tratamento o profissional está vinculado e qual o nível de formação da equipe clínica na abordagem utilizada.
A Terapia Comportamental Dialética (DBT) foi desenvolvida como um modelo estruturado e baseado em equipe, que envolve coordenação entre profissionais e múltiplos componentes de tratamento, não sendo originalmente concebida como uma prática individual isolada para casos de alta complexidade clínica.
Por esse motivo, a compreensão da estrutura do serviço e do nível de treinamento da equipe pode ser um fator importante na escolha do tratamento.
Uma Mensagem de Esperança
Receber o diagnóstico de Transtorno de Personalidade Borderline pode gerar medo, confusão ou até alívio por finalmente nomear uma experiência interna intensa e, muitas vezes, dolorosa. Independentemente da reação inicial, é importante dizer com clareza: esse diagnóstico não define quem você é, nem limita o tipo de vida que você pode construir.
Na abordagem da Dialectical Behavior Therapy, a recuperação não é entendida como a eliminação completa de emoções difíceis. Emoções intensas fazem parte da experiência humana. O foco do tratamento não está em “não sentir”, mas em aprender a viver com as emoções sem ser governado por elas.
Recuperar-se em DBT significa desenvolver um conjunto de habilidades práticas e treináveis para lidar com a vida de forma mais efetiva, mesmo em momentos de alta vulnerabilidade emocional. Isso inclui aprender a atravessar crises com mais segurança, reduzir comportamentos impulsivos que geram sofrimento, compreender melhor os próprios estados emocionais e construir relacionamentos mais estáveis, baseados em respeito, limites e autenticidade.
A DBT parte de uma visão dialética fundamental: duas verdades podem coexistir. É possível estar em sofrimento e, ao mesmo tempo, ser capaz de mudança. É possível reconhecer padrões difíceis e ainda assim construir novas formas de responder à vida. Essa tensão entre aceitação e mudança é o coração do tratamento.
Ao redor do mundo, milhares de pessoas têm aprendido essas habilidades e reconstruído suas trajetórias com mais estabilidade emocional, autonomia e sentido de vida. Esse processo não acontece de forma imediata, e ainda assim, é possível e sustentado por um modelo estruturado, validado cientificamente e aplicado de maneira consistente em diferentes contextos clínicos. E, talvez o ponto mais importante: esse caminho não precisa ser percorrido sozinho.
No DBT Paraná, o trabalho é fundamentado em ética clínica, transparência e aderência ao modelo baseado em evidências. Atuamos tanto na assistência a pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline quanto na formação de profissionais, com foco na implementação fiel da DBT conforme descrito nos protocolos e na literatura científica internacional.
Acreditamos que tratamento de qualidade não é improviso, é estrutura, compromisso e ciência aplicada com responsabilidade.
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