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Borderline tem cura? O que a ciência realmente diz


Em palestras e na prática clínica, uma pergunta surge com frequência: o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) tem cura?


Essa é uma dúvida legítima de pessoas que convivem com intensa desregulação emocional ou acompanham o sofrimento de alguém que recebeu esse diagnóstico. No entanto, para responder a essa pergunta, é importante compreender como a ciência entende atualmente o prognóstico do TPB.


Nas últimas décadas, as evidências científicas transformaram a compreensão do Transtorno de Personalidade Borderline. O que antes era considerado um transtorno de difícil tratamento é hoje reconhecido como uma condição com bom prognóstico quando tratada por meio de psicoterapias baseadas em evidências.


Em uma importante revisão publicada na The Lancet, Bohus et al. (2021) destacam que o Transtorno de Personalidade Borderline não deve mais ser considerado uma condição intratável, ressaltando que a maioria dos pacientes apresenta melhora significativa ao longo do tempo quando recebe tratamento adequado.


Neste artigo, explicaremos por que a literatura científica prefere falar em remissão e recuperação, em vez de "cura", e como a Terapia Dialética Comportamental (DBT) contribui para essa mudança.


Cura ou remissão? Entendendo a diferença


No senso comum, a palavra cura costuma significar o desaparecimento definitivo de uma doença. Entretanto, esse conceito não é o mais adequado para os transtornos de personalidade.


O Transtorno de Personalidade Borderline caracteriza-se por um padrão persistente de desregulação emocional, impulsividade, instabilidade nos relacionamentos interpessoais e alterações na identidade. Esses traços se desenvolvem a partir da interação entre fatores biológicos e experiências ambientais ao longo da vida (American Psychiatric Association [APA], 2022).


Por esse motivo, pesquisadores e diretrizes internacionais utilizam preferencialmente os conceitos de remissão dos sintomas, recuperação funcional e melhora sustentada da qualidade de vida (APA, 2022; World Health Organization [WHO], 2019).


O que significa remissão do Transtorno de Personalidade Borderline?


A remissão ocorre quando a intensidade e a frequência dos sintomas diminuem de forma consistente, permitindo que a pessoa deixe de preencher os critérios diagnósticos para o TPB. Na prática, isso significa uma redução importante da impulsividade e dos comportamentos autolesivos ou suicidas, além de maior estabilidade emocional, melhora nos relacionamentos e maior capacidade de exercer atividades acadêmicas, profissionais e sociais (Zanarini et al., 2012).


Os estudos longitudinais são bastante encorajadores. Pesquisas que acompanharam pacientes durante 10 a 16 anos demonstram que a maioria das pessoas com TPB alcança remissão diagnóstica sustentada ao longo do tempo, especialmente quando recebe tratamento especializado (Gunderson et al., 2011; Zanarini et al., 2012).


Bohus et al. (2021) reforçam que essas evidências transformaram profundamente a compreensão do prognóstico. Segundo os autores, o TPB apresenta um curso muito mais favorável do que se acreditava anteriormente, sendo possível alcançar recuperação funcional e melhora sustentada da qualidade de vida.


> Nota importante: Remissão não significa ausência completa de vulnerabilidade emocional. Algumas dificuldades podem reaparecer, principalmente em momentos de elevado estresse. Por isso, a manutenção das habilidades aprendidas durante a psicoterapia continua sendo fundamental.


Como a Terapia Dialética Comportamental (DBT) promove essa mudança?


Entre os tratamentos disponíveis, a Terapia Dialética Comportamental (DBT), desenvolvida por Marsha Linehan, é uma das abordagens psicoterápicas com maior suporte científico para o tratamento do TPB (Linehan, 1993, 2015).


A revisão de Bohus et al. (2021) aponta que as psicoterapias estruturadas representam o tratamento de primeira linha para o transtorno, sendo a DBT a mais robusta na redução de comportamentos suicidas, autolesões, impulsividade, hospitalizações psiquiátricas e prejuízo funcional.


A DBT não busca oferecer uma "cura" imediata. Seu objetivo é desenvolver habilidades que permitam à pessoa responder de maneira mais eficaz às situações da vida, equilibrando aceitação e mudança os princípios centrais do modelo dialético (Linehan, 1993).


O que a ciência chama de "DBT"?


Um aspecto frequentemente pouco discutido no Brasil é que as pesquisas que validaram a DBT como uma das psicoterapias de primeira linha para o TPB não foram realizadas utilizando apenas técnicas isoladas em psicoterapia individual.


O modelo original desenvolvido por Marsha Linehan é um programa de tratamento estruturado conhecido como DBT Compreensiva, composto por quatro elementos integrados e interdependentes:


1. Psicoterapia Individual: Encontros semanais focados na identificação de comportamentos-alvo, redução de comportamentos de risco e generalização das habilidades para o contexto da vida diária.

2. Treinamento de Habilidades em Grupo: Ensino sistemático de habilidades psicológicas divididas em quatro módulos: Mindfulness, Regulação Emocional, Tolerância ao Mal-Estar e Efetividade Interpessoal.

3. Coaching Entre Sessões: Suporte clínico breve fora do consultório (via telefone ou mensagens) para auxiliar o paciente a aplicar as habilidades em contextos reais de crise, reduzindo respostas impulsivas.

4. Equipe de Consulta para Terapeutas: Descrita por Linehan como "a terapia para o terapeuta", essa equipe é essencial para reduzir o burnout profissional, melhorar as tomadas de decisão clínica e garantir a fidelidade ao modelo. A ausência desse elemento frequentemente resulta em sobrecarga do profissional e altas taxas de abandono do tratamento.


Por que a estrutura do tratamento importa?


Muitos profissionais incorporam estratégias da DBT em seus atendimentos individuais isolados. Embora isso possa ser útil e produzir benefícios para diferentes demandas clínicas, é fundamental distinguir essa prática da DBT Compreensiva.


Para pacientes com TPB, especialmente aqueles que enfrentam crises intensas, comportamentos suicidas, autolesão recorrente ou histórico de rupturas terapêuticas, a literatura internacional e os ensaios clínicos recomendam a implementação do modelo completo, como descrito acima.


Nesse contexto, é fundamental que pacientes e familiares conheçam o modelo de tratamento oferecido, a qualificação da equipe e se o serviço possui a estrutura necessária para implementar a DBT em seu formato compreensivo. As evidências provenientes de ensaios clínicos randomizados indicam que esse modelo está associado à redução de comportamentos suicidas e autolesivos, menor utilização de serviços de emergência e internações psiquiátricas, além de melhora significativa do funcionamento global e da qualidade de vida (Linehan et al., 2006; Stoffers-Winterling et al., 2022).


Uma vida que vale a pena ser vivida


A pergunta "Borderline tem cura?" pode ser reformulada à luz das evidências científicas. O mais importante não é buscar o desaparecimento completo e mágico do transtorno, mas compreender que é possível alcançar a remissão dos sintomas, a recuperação funcional e construir uma vida com significado.


O TPB deixou de ser visto como uma condição sem perspectiva. Hoje, a recuperação é um objetivo realista para a grande maioria das pessoas que recebem o suporte adequado. Esse entendimento está plenamente alinhado à proposta da DBT, cujo objetivo final é ajudar cada indivíduo a construir aquilo que Marsha Linehan denomina "uma vida que vale a pena ser vivida" (Linehan, 1993, 2015).


Receber o diagnóstico de Transtorno de Personalidade Borderline não determina o futuro de ninguém. Com tratamento baseado em evidências, acompanhamento especializado e prática consistente das habilidades aprendidas, é possível reduzir significativamente o sofrimento, fortalecer relacionamentos, ampliar a estabilidade emocional e construir uma vida mais plena e significativa.


Na DBT Paraná, oferecemos tratamento baseado em evidências científicas para pessoas com Transtorno de Personalidade Borderline e outras condições associadas à desregulação emocional. Nossa equipe trabalha com programas estruturados de Terapia Dialética Comportamental (DBT), seguindo o modelo compreensivo desenvolvido por Marsha Linehan e respaldado pelas principais diretrizes internacionais.


Referências


American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed., text rev.; DSM-5-TR). American Psychiatric Association.

Bohus, M., Stoffers-Winterling, J., Sharp, C., Krause-Utz, A., Schmahl, C., & Lieb, K. (2021). Borderline personality disorder. The Lancet, 398(10310), 1528–1540. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(21)00476-1

Gunderson, J. G., Stout, R. L., McGlashan, T. H., Shea, M. T., Morey, L. C., Grilo, C. M., Zanarini, M. C., Yen, S., Markowitz, J. C., Sanislow, C., Ansell, E., Pinto, A., & Skodol, A. E. (2011). Ten-year course of borderline personality disorder: Psychopathology and function from the Collaborative Longitudinal Personality Disorders Study. Archives of General Psychiatry, 68(8), 827–837.

Linehan, M. M. (1993). Cognitive-behavioral treatment of borderline personality disorder. Guilford Press.

Linehan, M. M. (2015). DBT® skills training manual (2nd ed.). Guilford Press.

Linehan, M. M., Comtois, K. A., Murray, A. M., Brown, M. Z., Gallop, R. J., Heard, H. L., Korslund, K. E., Tutek, D. A., Reynolds, S. K., & Lindenboim, N. (2006). Two-year randomized controlled trial and follow-up of dialectical behavior therapy versus therapy by experts for suicidal behaviors and borderline personality disorder. Archives of General Psychiatry, 63(7), 757–766.

Stoffers-Winterling, J. M., Storebø, O. J., Völlm, B. A., Mattivi, J. T., Jørgensen, M. S., Faltinsen, E., Todorovac, A., Sales, C. P., Callesen, H. E., Lieb, K., & Simonsen, E. (2022). Psychological therapies for people with borderline personality disorder. Cochrane Database of Systematic Reviews, (5), CD012955.

World Health Organization. (2019). International classification of diseases for mortality and morbidity statistics (11th Revision). https://icd.who.int/

Zanarini, M. C., Frankenburg, F. R., Reich, D. B., & Fitzmaurice, G. (2012). Attainment and stability of sustained symptomatic remission and recovery among patients with borderline personality disorder and Axis II comparison subjects: A 16-year prospective follow-up study. American Journal of Psychiatry, 169(5), 476–483.




 
 
 

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