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DBT-PTSD: um marco no tratamento do trauma complexo


O trauma complexo está associado à exposição prolongada ou repetida a eventos extremamente ameaçadores ou horríveis, dos quais escapar é difícil ou impossível. Essas experiências podem ocorrer tanto na infância quanto na vida adulta e incluem abuso infantil, negligência crônica, violência interpessoal, tortura, escravidão, genocídio, campanhas de violência organizada e guerra (World Health Organization [WHO], 2022; Herman, 2015).


Em indivíduos com Transtorno da Personalidade Borderline (TPB), experiências traumáticas, especialmente o abuso infantil, são altamente prevalentes e estão associadas a dificuldades persistentes de regulação emocional, em consonância com o modelo biossocial proposto por Linehan (1993). Além disso, sentimentos crônicos de vazio figuram entre os critérios diagnósticos do TPB (American Psychiatric Association [APA], 2013), enquanto prejuízos marcantes nos vínculos interpessoais e na capacidade de confiar nos outros são considerados características centrais do transtorno (Gunderson, 2007).


A Terapia Comportamental Dialética (DBT), desenvolvida por Marsha Linehan, representou um avanço significativo no tratamento de indivíduos com TPB, demonstrando eficácia na redução de comportamentos suicidas, comportamentos autolesivos e hospitalizações psiquiátricas, além de melhorar o funcionamento global e a adesão ao tratamento (Linehan, 1993/2015; Stoffers et al., 2012). Apesar desses avanços, permanecia uma questão clínica fundamental: como tratar, de forma segura e eficaz, o trauma em pacientes com elevado risco de desregulação emocional e comportamentos suicidas?


Em resposta aos desafios clínicos encontrados no tratamento de pessoas com histórico de trauma complexo e graves dificuldades de regulação emocional, Martin Bohus e colaboradores desenvolveram o protocolo Dialectical Behavior Therapy for Posttraumatic Stress Disorder (DBT-PTSD). O modelo não representa uma ruptura com a Terapia Comportamental Dialética (DBT) desenvolvida por Marsha Linehan, mas uma ampliação fundamentada em seus princípios centrais, adaptada às necessidades específicas dessa população.


O protocolo preserva componentes nucleares da DBT, incluindo o modelo biossocial, a validação, o equilíbrio dialético entre aceitação e mudança, o treinamento de habilidades e a análise funcional do comportamento. Ao mesmo tempo, incorpora estratégias específicas direcionadas ao processamento do trauma, considerando as particularidades clínicas de indivíduos com TEPT associado à desregulação emocional grave.


Originalmente, o DBT-PTSD foi desenvolvido para adultos com histórico de abuso físico e/ou sexual na infância, diagnóstico de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) e dificuldades significativas de regulação emocional. Com a inclusão do Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo (TEPT Complexo) na CID-11, observou-se que muitas características dessa população apresentam ampla sobreposição com os critérios desse diagnóstico.


Ensaios clínicos randomizados demonstraram que o DBT-PTSD está associado a reduções significativas nos sintomas de TEPT, dissociação, depressão e prejuízo funcional, consolidando-se como uma intervenção com robusto suporte empírico para adultos com trauma complexo e dificuldades graves de regulação emocional (Bohus et al., 2013; Bohus et al., 2020).


O que é DBT-PTSD?


O DBT-PTSD é uma adaptação da Terapia Comportamental Dialética (DBT) voltada ao tratamento do TEPT associado à desregulação emocional grave, especialmente em pessoas expostas a traumas interpessoais durante a infância. O protocolo combina os princípios fundamentais da DBT com intervenções específicas para o trauma, oferecendo uma abordagem estruturada para uma população historicamente considerada de maior complexidade clínica (Bohus et al., 2013; Bohus et al., 2020).


Enquanto a DBT padrão tradicionalmente reserva o processamento intensivo das memórias traumáticas para o Estágio 2, após a estabilização comportamental do Estágio 1, o DBT-PTSD organiza o tratamento em fases clínicas. Nesse modelo, as intervenções focadas no trauma são introduzidas durante a fase de tratamento do trauma, tão logo o paciente apresente estabilidade comportamental suficiente e atenda aos critérios de segurança definidos pelo protocolo (Bohus et al., 2013; Bohus et al., 2020).


Os principais componentes terapêuticos do protocolo incluem:

  • Exposição e processamento das memórias traumáticas: realização de exposição gradual baseada em memória, associada ao processamento emocional e à integração das experiências traumáticas, visando reduzir a evitação e promover a elaboração adaptativa do trauma (Bohus et al., 2013; Bohus et al., 2020).

  • Mindfulness corporal e estratégias de grounding: desenvolvimento da consciência corporal e emocional, utilizando técnicas de ancoragem para reduzir dissociação, hiperativação fisiológica e respostas automáticas desencadeadas por estímulos relacionados ao trauma (Bohus et al., 2013; Bohus et al., 2020).

  • Modificação de crenças relacionadas ao trauma: identificação e reestruturação de crenças desadaptativas associadas à vergonha, culpa, autodepreciação e desamparo, favorecendo interpretações mais adaptativas das experiências traumáticas (Bohus et al., 2020).

  • Integração das habilidades da DBT: utilização sistemática de habilidades de mindfulness, tolerância ao mal-estar, regulação emocional e efetividade interpessoal para aumentar a estabilidade comportamental, facilitar o processamento do trauma e reduzir o risco de recaídas durante o tratamento (Linehan, 2015; Bohus et al., 2020).

Essa combinação permite que o paciente enfrente a raiz do sofrimento mais cedo, trazendo esperança real onde antes havia apenas espera.


Protocolos de DBT para truama: DBT-PTSD vs. DBT-PE. Qual a diferença estrutural e por que ela importa?


Quando se trata da integração do tratamento do trauma à Terapia Comportamental Dialética (DBT), dois protocolos baseados nesse modelo se destacam para o tratamento do trauma: a Terapia Comportamental Dialética com Exposição Prolongada (Dialectical Behavior Therapy Prolonged Exposure: DBT-PE), desenvolvida por Melanie Harned, e a Terapia Comportamental Dialética para o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (Dialectical Behavior Therapy for Posttraumatic Stress Disorder: DBT-PTSD), desenvolvida por Martin Bohus e colaboradores. Embora ambos compartilhem os princípios fundamentais da DBT, diferem em sua organização clínica, nos critérios para início do processamento do trauma e nas estratégias terapêuticas empregadas (Harned et al., 2014; Bohus et al., 2013; Bohus et al., 2020).


A diferença entre esses protocolos vai além das técnicas de exposição, refletindo formas distintas de organizar o tratamento do trauma dentro da Terapia Comportamental Dialética.


  • No DBT-PE, a intervenção é integrada ao modelo estagiado da DBT proposto por Linehan. O processamento intensivo do trauma ocorre após a estabilização comportamental e o alcance dos critérios de prontidão clínica, tradicionalmente correspondentes ao Estágio 2 do tratamento, quando os comportamentos que ameaçam a vida e interferem na terapia já se encontram suficientemente controlados (Harned et al., 2014; Harned, 2022; Linehan, 2015).

  • Em contraste, o DBT-PTSD foi concebido especificamente para pacientes com transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) associado à grave desregulação emocional. Em vez de seguir a organização em estágios da DBT padrão, o protocolo estrutura-se em fases clínicas e introduz as intervenções focadas no trauma assim que o paciente apresenta estabilidade comportamental suficiente e atende aos critérios de segurança definidos pelo tratamento, sem exigir uma fase prolongada de estabilização antes do processamento traumático (Bohus et al., 2013; Bohus et al., 2020).


Impacto clínico: Ao adotar um modelo de estabilização funcional, em vez de uma estabilização prolongada, o DBT-PTSD permite que pacientes elegíveis iniciem o processamento do trauma mais precocemente no curso do tratamento. Essa organização amplia o acesso às intervenções focadas no trauma sem comprometer a segurança clínica e foi associada, em ensaios clínicos, a reduções significativas dos sintomas de TEPT, maior taxa de remissão diagnóstica e melhora da desregulação emocional e do funcionamento global (Bohus et al., 2020; Bohus & Stoffers-Winterling, 2021).


Linha do Tempo das Evidências Científicas sobre DBT-PTSD


2013 – Estudo piloto do DBT-PTSD: Publicação dos primeiros dados clínicos sobre o protocolo DBT-PTSD em mulheres com TEPT relacionado ao abuso sexual na infância e desregulação emocional, demonstrando boa aceitabilidade, segurança e reduções clinicamente relevantes dos sintomas de TEPT (Bohus et al., 2013).

2016 – Dissociação não impede o tratamento: Análises demonstraram que níveis elevados de dissociação não comprometeram a eficácia do DBT-PTSD, ampliando a compreensão sobre sua aplicabilidade clínica (Kleindienst et al., 2016).

2019 – Programa de pesquisa do DBT-PTSD: Publicação do programa de pesquisa que sistematizou o racional teórico, a arquitetura do protocolo e o desenho dos estudos destinados à avaliação de sua eficácia clínica (Bohus et al., 2019).

2020 – Ensaio clínico randomizado publicado no JAMA Psychiatry: O DBT-PTSD demonstrou superioridade em relação à Cognitive Processing Therapy (CPT) na redução dos sintomas de TEPT, com maior taxa de remissão diagnóstica e menor abandono do tratamento (Bohus et al., 2020).

2021 – Consolidação do modelo: Revisão internacional sintetizou os fundamentos teóricos, a estrutura clínica e as evidências acumuladas do DBT-PTSD, consolidando o protocolo como uma abordagem baseada em evidências para pacientes com TEPT associado à desregulação emocional (Bohus & Stoffers-Winterling, 2021).

2025 – Estudo naturalístico contexto hospitalar: Avaliou a efetividade de um programa intensivo de internação baseado no DBT-PTSD, combinado com intervenções focadas no trauma, em pacientes com TEPT grave e múltiplas comorbidades psiquiátricas, incluindo transtorno de personalidade borderline. Os resultados demonstraram reduções clinicamente significativas dos sintomas, mantidas nas avaliações pós-tratamento e nos seguimentos de 6 e 12 meses (Kamstra et al., 2025).


Em pouco mais de uma década, o DBT-PTSD percorreu uma trajetória que vai dos estudos piloto às investigações multicêntricas e naturalísticas, consolidando-se como uma das abordagens mais promissoras e empiricamente fundamentadas para o tratamento do TEPT associado à desregulação emocional (Bohus et al., 2013; Bohus et al., 2020; Bohus & Stoffers-Winterling, 2021; Kamstra et al., 2025).


Por que isso importa para pacientes?


Para muitas pessoas com TEPT e grave desregulação emocional, a necessidade de aguardar longos períodos de estabilização antes de iniciar o processamento do trauma pode ser vivenciada como fonte adicional de sofrimento e desesperança. O DBT-PTSD propõe uma organização diferente do tratamento, permitindo que as intervenções focadas no trauma sejam iniciadas assim que critérios clínicos de segurança e estabilidade comportamental suficiente forem alcançados (Bohus et al., 2020; Bohus & Stoffers-Winterling, 2021).


Essa abordagem pode oferecer benefícios importantes:


  • Possibilita o início mais precoce do processamento do trauma, quando o paciente apresenta condições clínicas para isso.

  • Integra habilidades da DBT ao trabalho com as memórias traumáticas, favorecendo o enfrentamento das lembranças com maior segurança e menor risco de desregulação comportamental.

  • Favorece a redução dos sintomas e a recuperação funcional, com foco na construção de uma vida que vale a pena ser vivida, princípio central da Terapia Comportamental Dialética (Linehan, 2015; Bohus et al., 2020).


Por que isso importa para profissionais?


Para psicólogos, psiquiatras e demais profissionais da saúde mental, o DBT-PTSD representa:


  • Um protocolo estruturado e bastante fundamentado em evidências científicas, desenvolvido especificamente para o tratamento do transtorno de estresse pós-traumático associado à desregulação emocional (Bohus et al., 2020; Bohus & Stoffers-Winterling, 2021).

  • Uma ampliação das possibilidades clínicas da Terapia Comportamental Dialética, ao integrar, de forma sistematizada, estratégias focadas no trauma à estrutura da DBT (Bohus et al., 2013; Bohus et al., 2020).

  • Um modelo que oferece critérios claros para o início do processamento do trauma, conciliando segurança clínica com intervenções baseadas em evidências, sem depender de períodos prolongados de estabilização (Bohus et al., 2020).Um recurso poderoso para ampliar a aplicabilidade da DBT em contextos de trauma.


Considerações finais

Os avanços no tratamento do trauma no campo da Terapia Comportamental Dialética demonstram que é possível integrar segurança, estrutura e aprofundamento clínico por meio de protocolos sistematizados e baseados em evidências. Modelos como o DBT-PTSD ampliam as possibilidades de intervenção ao demonstrar que o processamento do trauma pode ser realizado de forma direta, planejada e clinicamente responsável, considerando as necessidades específicas de pessoas com transtornos relacionados ao trauma e dificuldades de regulação emocional. Esses avanços reforçam que o tratamento do trauma não precisa ser adiado indefinidamente, mas conduzido com critérios claros, treinamento adequado e fundamentação científica sólida.


Na DBT Paraná, esse compromisso se traduz em prática clínica baseada em evidências, formação qualificada de profissionais e desenvolvimento contínuo de conhecimento aplicado à realidade brasileira. Acreditamos que construir uma vida significativa também envolve criar caminhos seguros para acessar, elaborar e transformar experiências traumáticas, com suporte técnico, ético e cientificamente fundamentado.


Aos profissionais da saúde mental:


No dia 20 de julho de 2026, concluímos a primeira turma de formação no protocolo DBT-PTSD pela DBT Paraná. Antes mesmo do encerramento da formação, já recebíamos solicitações para uma nova edição, refletindo o crescente interesse dos profissionais brasileiros por abordagens estruturadas, especializadas e fundamentadas em evidências científicas para o tratamento de traumas complexos.


Atendendo a essa demanda, no dia 20 de setembro de 2026 iniciaremos uma nova turma do curso Protocolo DBT para Traumas Complexos: DBT-PTSD, ministrado pela MSc. Gleidna Santos, com base no modelo desenvolvido pelo professor Dr. Martin Bohus e sua equipe.


A formação terá como foco a compreensão e aplicação clínica estruturada do protocolo, incluindo tomada de decisão em casos complexos, integração dos princípios da Terapia Comportamental Dialética e aprofundamento dos fundamentos descritos na literatura científica do DBT-PTSD.


Uma oportunidade para profissionais que desejam ampliar sua prática clínica com maior consistência, critérios técnicos claros e fundamentação nas evidências científicas mais atuais sobre o tratamento do trauma complexo.


Referências


American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed.). American Psychiatric Publishing. https://doi.org/10.1176/appi.books.9780890425596

Bohus, M., Dyer, A. S., Priebe, K., Krüger, A., Kleindienst, N., Schmahl, C., ... & Steil, R. (2013). Dialectical behaviour therapy for post-traumatic stress disorder after childhood sexual abuse in patients with and without borderline personality disorder: A randomised controlled trial. Psychotherapy and psychosomatics, 82(4), 221-233.

Bohus, M., Kleindienst, N., Hahn, C., Müller-Engelmann, M., Ludäscher, P., Steil, R., ... & Priebe, K. (2020). Dialectical behavior therapy for posttraumatic stress disorder (DBT-PTSD) compared with cognitive processing therapy (CPT) in complex presentations of PTSD in women survivors of childhood abuse: a randomized clinical trial. JAMA psychiatry, 77(12), 1235-1245. https://doi.org/10.1001/jamapsychiatry.2020.2148

Gunderson, J. G. (2007). Disturbed relationships as a phenotype for borderline personality disorder. American Journal of Psychiatry, 164(11), 1637-1640.

Herman, J. L. (2015). Trauma and recovery: The aftermath of violence--from domestic abuse to political terror. Hachette uK.

Harned, M. S. (2022). Treating trauma in dialectical behavior therapy: The DBT prolonged exposure protocol (DBT PE). Guilford Publications.

Harned, M. S., Korslund, K. E., & Linehan, M. M. (2014). A pilot randomized controlled trial of dialectical behavior therapy with and without the dialectical behavior therapy prolonged exposure protocol for suicidal and self-injuring women with borderline personality disorder and PTSD. Behaviour research and therapy, 55, 7-17.

Kamstra, A. C., de Vries, S. O., Brilman, M. F., Vasilev, P., Alma, M. A., van Asselt, A. D., ... & Jörg, F. (2025). Inpatient dialectical behavior therapy combined with trauma-focused therapy for PTSD and borderline personality disorder symptoms: study design of the naturalistic trauma therapy study. Frontiers in psychiatry, 16, 1538267.

Kleindienst, N., Priebe, K., Görg, N., Dyer, A., Steil, R., Lyssenko, L., ... & Bohus, M. (2016). State dissociation moderates response to dialectical behavior therapy for posttraumatic stress disorder in women with and without borderline personality disorder. European journal of psychotraumatology, 7(1), 30375.

Linehan, M. (1993). Cognitive-behavioral treatment of borderline personality disorder. Guilford press.

Linehan, M. M. (2025). DBT skills training manual. Guilford Publications.

World Health Organization. (2022). International classification of diseases for mortality and morbidity statistics (11th Revision). https://icd.who.int/

 
 
 

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