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Trauma e Transtorno de Personalidade Borderline

há 10 horas
8 min de leitura

A relação entre experiências adversas, trauma e desregulação emocional é clinicamente relevante no transtorno de personalidade borderline (TPB). Estudos identificam uma associação consistente entre adversidades na infância e o diagnóstico de TPB, incluindo abuso emocional, abuso sexual, abuso físico e negligência. Entretanto, a magnitude dessas associações varia conforme o desenho dos estudos, as características das amostras e os métodos utilizados para avaliar as experiências adversas (Porter et al., 2020; Yuan et al., 2023).



Como já apontava Linehan em seu manual (1993, p. 57), a relação entre experiências ambientais traumáticas e dificuldades de regulação emocional merece atenção particular no contexto do TPB, inclusive diante da frequência de relatos de abuso sexual na infância em determinadas populações clínicas. Essa observação histórica continua relevante, e ainda assim, deve ser interpretada à luz das evidências acumuladas desde a formulação original da DBT.


A literatura contemporânea sustenta uma posição mais precisa: experiências adversas e traumáticas constituem fatores associados ao desenvolvimento e à gravidade de características do TPB, mas não representam uma causa única, necessária ou suficiente para explicar o transtorno. Estudos retrospectivos também apresentam limitações para estabelecer relações causais, e a associação entre trauma e TPB não permite determinar, isoladamente, a trajetória de desenvolvimento de uma pessoa específica (Porter et al., 2020; Yuan et al., 2023).


Da mesma forma, exposição a um evento potencialmente traumático não equivale a um diagnóstico de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). O diagnóstico depende da avaliação dos critérios clínicos pertinentes, e não apenas da identificação de uma experiência adversa na história de vida. Essa distinção orienta a compreensão clínica e a escolha das intervenções. Para entender o papel do trauma no TPB e as contribuições da Terapia Comportamental Dialética (DBT), é necessário começar pelo modelo biossocial proposto por Marsha Linehan.


O modelo biossocial: uma compreensão multifatorial do TPB


Na formulação biossocial da DBT, o TPB é compreendido a partir da interação entre vulnerabilidades individuais relacionadas à regulação emocional de origem biológica e características do ambiente social em que a pessoa se desenvolve. O modelo original enfatiza a junção entre vulnerabilidade emocional e o ambiente social invalidante, sem reduzir o transtorno a uma causa exclusivamente biológica ou ambiental (Linehan, 1993).


A vulnerabilidade emocional pode envolver maior sensibilidade a estímulos emocionais, reações mais intensas e dificuldades para retornar ao nível habitual de ativação após uma resposta emocional. Essas características, entretanto, não devem ser interpretadas como um conjunto universal ou idêntico em todas as pessoas com TPB.


O ambiente também participa desse processo. Em contextos persistentemente invalidantes, as experiências emocionais podem ser desconsideradas, punidas, minimizadas ou interpretadas como inadequadas. Quando esses padrões se repetem, podem dificultar a aprendizagem de estratégias eficazes para identificar, nomear, compreender e regular emoções, bem como para comunicar necessidades e responder a situações interpessoais.


É importante destacar que invalidação não é sinônimo de trauma, abuso ou intenção deliberada de causar sofrimento. O conceito descreve padrões de interação e suas possíveis consequências para o desenvolvimento emocional; sua aplicação clínica exige considerar o contexto, a frequência e a função dessas interações.


É nesse cenário multifatorial que experiências adversas e traumáticas podem assumir relevância. Abuso, negligência, perdas, instabilidade relacional e outras adversidades podem integrar a história de algumas pessoas com TPB e contribuir para dificuldades atuais. Contudo, não se deve presumir que todas as pessoas com o transtorno tenham vivenciado abuso ou trauma significativo, nem concluir que toda pessoa exposta a essas experiências desenvolverá TPB.


A revisão sistemática de Yuan et al. (2023) destaca que, embora a associação entre trauma na infância e TPB seja consistente, os mecanismos pelos quais diferentes tipos, momentos e padrões de exposição se relacionam com os sintomas permanecem complexos e não inteiramente esclarecidos.


Trauma pode ser uma parte importante da história clínica, mas não constitui, isoladamente, uma explicação completa para o TPB. Essa distinção também impede dois erros clínicos: presumir a existência de trauma em razão do diagnóstico de TPB e atribuir automaticamente todos os sintomas atuais a uma experiência traumática identificada.


O que Linehan já apontava e o que a literatura acrescentou


Na obra original, Linehan (1993) discutiu a presença de experiências adversas entre pessoas com TPB, ao mesmo tempo que advertiu contra a generalização de que todas teriam sofrido abuso físico ou sexual grave. Essa ressalva permanece importante. Histórias de desenvolvimento podem incluir diferentes combinações de abuso, negligência, perdas, rejeição, instabilidade familiar, invalidação e outras experiências, sem que seja possível estabelecer uma trajetória única para todas as pessoas com o diagnóstico.


A meta-análise de Porter et al. (2020), que reuniu 97 estudos, encontrou associações entre adversidades na infância e TPB. Contudo, a magnitude da associação variou substancialmente conforme o tipo de estudo e o grupo de comparação. Os autores também identificaram limitações na literatura, especialmente quando os resultados de estudos retrospectivos são interpretados como demonstração de causalidade.


A revisão sistemática de Yuan et al. (2023) reforçou a necessidade de examinar diferentes dimensões das experiências adversas, como tipo, repetição, momento de ocorrência e exposição a múltiplas formas de adversidade. Os autores também destacaram limitações metodológicas que restringem conclusões causais definitivas.


Mais recentemente, Christensen et al. (2025) examinaram o papel do TEPT e do histórico de trauma infantil nos resultados do tratamento de pessoas com TPB submetidas à DBT, ampliando a investigação sobre como essas variáveis se relacionam com a evolução clínica durante o tratamento.


Em conjunto, essas evidências sustentam uma conclusão importante: a história de adversidades deve ser investigada de maneira cuidadosa, mas sua interpretação precisa considerar os sintomas atuais, o funcionamento da pessoa, o contexto ambiental e os mecanismos que mantêm o sofrimento.


Associação populacional não equivale a explicação causal individual. A frequência elevada de trauma em determinadas amostras não demonstra que o trauma seja a causa do transtorno em cada pessoa; da mesma forma, identificar uma experiência traumática não permite concluir que todos os sintomas atuais decorram diretamente dela.


Trauma não é sinônimo de TEPT


Uma distinção essencial para a prática clínica é diferenciar a exposição a experiências adversas, as consequências psicológicas dessas experiências e a presença de um transtorno relacionado ao trauma. Uma pessoa pode vivenciar um evento potencialmente traumático e não desenvolver TEPT. Outra pode apresentar sofrimento psicológico associado à experiência, incluindo vergonha, ansiedade, sintomas depressivos, dissociação ou dificuldades interpessoais, sem preencher os critérios diagnósticos para TEPT. Há também pessoas que desenvolvem o transtorno e apresentam sintomas persistentes que exigem intervenção específica.


Essas possibilidades não são mutuamente exclusivas de maneira absoluta: sintomas relacionados ao trauma podem coexistir com outros transtornos e precisam ser avaliados no contexto clínico individual.


Por isso, a avaliação não deve se limitar à pergunta:

“Essa pessoa sofreu trauma?”

É necessário investigar também:


  • Quais experiências adversas são relevantes para a compreensão do caso?

  • Quais sintomas estão presentes atualmente?

  • Há critérios para TEPT ou outro transtorno relacionado ao trauma?

  • Como as memórias, os estímulos associados, as emoções e as respostas comportamentais interagem?

  • Quais comportamentos mantêm o sofrimento e quais intervenções são indicadas?


A finalidade não é apenas identificar acontecimentos passados, mas compreender a relação entre história de aprendizagem, vulnerabilidades individuais, contexto atual e padrões comportamentais.


Essa avaliação deve ser conduzida com sensibilidade, evitando interrogatórios desnecessários, interpretações precipitadas e a suposição de que a pessoa precise relatar detalhadamente experiências traumáticas para receber cuidado adequado.


TPB e TEPT: comorbidade e implicações para o tratamento


TPB e TEPT podem coexistir, e essa possibilidade tem implicações clínicas importantes. A presença de TEPT pode acrescentar dificuldades relacionadas a memórias intrusivas, esquiva, hipervigilância, alterações emocionais e reações a estímulos associados ao trauma.


A comorbidade entre o transtorno de personalidade borderline (TPB) e o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) é frequente em amostras clínicas, embora as estimativas de prevalência variem consideravelmente entre os estudos. Uma revisão sistemática narrativa recente identificou taxas de comorbidade entre 22,2% e 74,4% nas amostras clínicas analisadas, evidenciando a importância de considerar as características das populações investigadas e os métodos de avaliação empregados na interpretação desses resultados (O’Donnell & Links, 2026).


A relevância clínica dessa comorbidade, contudo, não se limita à coexistência dos diagnósticos. A literatura aponta que a associação entre TPB e TEPT pode envolver maior desregulação emocional e complexidade clínica (Jowett et al., 2020). Em determinados casos, os sintomas pós-traumáticos podem contribuir para a manutenção do sofrimento emocional e estar associados a comportamentos autolesivos, sobretudo quando estes desempenham funções de regulação emocional diante de experiências relacionadas ao trauma. Esses achados reforçam a importância de avaliar os sintomas pós-traumáticos e suas relações funcionais com os comportamentos-problema, considerando a necessidade de intervenções direcionadas ao TEPT, para além do tratamento das características do TPB (Slotema et al., 2020).


Isso modifica a avaliação e o planejamento terapêutico. Não basta identificar a exposição ao trauma: é necessário avaliar a presença de um transtorno relacionado ao trauma, seu impacto funcional e sua relevância para as prioridades terapêuticas. Quando TPB e TEPT coexistem, o plano de tratamento deve considerar ambos os quadros, definindo intervenções de acordo com as necessidades, os riscos e a condição clínica atual da pessoa.


A Terapia Comportamental Dialética oferece uma estrutura para compreender e tratar a desregulação emocional, os comportamentos de risco e as dificuldades interpessoais. As habilidades exploradas dentro do tratamento podem ajudar a pessoa a lidar com o sofrimento relacionado ao trauma. Entretanto, o uso dessas habilidades não equivale, por si só, à aplicação de um tratamento focalizado completo para o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).


A formação de profissionais para atender pessoas com transtorno de personalidade borderline (TPB) e experiências traumáticas exige mais do que o conhecimento das habilidades da DBT. Requer compreensão dos modelos teóricos, capacidade de avaliação clínica e análise funcional, identificação de comportamentos prioritários e conhecimento das intervenções específicas indicadas para os problemas identificados.


Nesse contexto, é fundamental distinguir três competências:


  1. Aplicar a DBT: compreender seus princípios, estratégias, hierarquia de alvos e habilidades, respeitando os limites e os objetivos da intervenção realizada.

  2. Avaliar problemas relacionados ao trauma: reconhecer sintomas sugestivos de TEPT, avaliar sua relevância clínica e identificar quando é necessária investigação diagnóstica ou intervenção focalizada.

  3. Conduzir protocolos específicos para o trauma: obter formação e supervisão compatíveis com o protocolo utilizado, conhecer seus critérios de indicação e prontidão e monitorar os riscos e os resultados clínicos.


A evidência disponível não sustenta a recomendação de que toda pessoa com TPB e histórico traumático deva iniciar o tratamento pelo processamento do trauma. Tampouco justifica ignorar sistematicamente os sintomas pós-traumáticos até que todos os demais problemas estejam resolvidos.


A decisão clínica deve considerar a hierarquia de alvos da DBT, os riscos atuais, a presença e o impacto funcional do TEPT, as preferências da pessoa atendida e os critérios do tratamento focalizado selecionado. Quando houver indicação de uma intervenção específica para TEPT, a avaliação de prontidão deve orientar sua implementação de acordo com os requisitos do protocolo, sem transformar a preparação terapêutica em adiamento indefinido.


A DBT Paraná oferece capacitação e formação profissional relacionadas à DBT e a protocolos específicos para problemas associados ao trauma. Seu compromisso formativo é promover conhecimento cientificamente fundamentado, compreensão dos limites de cada tratamento e aplicação responsável das intervenções, distinguindo cursos introdutórios de formações específicas necessárias para a condução de tratamentos especializados.


Referências


Christensen, K. E., McMain, S., Chapman, A., et al. (2025). An examination of the role of PTSD and childhood trauma on treatment outcomes for individuals with borderline personality disorder in dialectical behavior therapy. Borderline Personality Disorder and Emotion Dysregulation, 12, Article 47. https://doi.org/10.1186/s40479-025-00322-2 


Jowett, S., Karatzias, T., & Albert, I. (2020). Multiple and interpersonal trauma are risk factors for both post-traumatic stress disorder and borderline personality disorder: A systematic review on the traumatic backgrounds and clinical characteristics of comorbid post-traumatic stress disorder/borderline personality disorder groups versus single-disorder groups. Psychology and Psychotherapy: Theory, Research and Practice, 93(3), 621–638. https://doi.org/10.1111/papt.12248 


Linehan, M. M. (1993). Cognitive-behavioral treatment of borderline personality disorder. Guilford Press.


O’Donnell, M., & Links, P. S. (2026). Re-examining the comorbidity between borderline personality disorder and post-traumatic stress disorder: A systematic narrative review. BMC Psychiatry, 26, Article 52. https://doi.org/10.1186/s12888-025-07679-2


Porter, C., Palmier-Claus, J., Branitsky, A., Mansell, W., Warwick, H., & Varese, F. (2020). Childhood adversity and borderline personality disorder: A meta-analysis. Acta Psychiatrica Scandinavica, 141(1), 6–20. https://doi.org/10.1111/acps.13118


Slotema, C. W., Wilhelmus, B., Arends, L. R., & Franken, I. H. A. (2020). Psychotherapy for posttraumatic stress disorder in patients with borderline personality disorder: A systematic review and meta-analysis of its efficacy and safety. European Journal of Psychotraumatology, 11(1), Article 1796188. https://doi.org/10.1080/20008198.2020.1796188 


Yuan, Y., Lee, H., Eack, S. M., & Newhill, C. E. (2023). A systematic review of the association between early childhood trauma and borderline personality disorder. Journal of Personality Disorders, 37(1), 16–35. https://doi.org/10.1521/pedi.2023.37.1.16


 
 
 

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