Borderline raramente vem sozinho: as comorbidades que complicam o diagnóstico e o tratamento
- Gleidna Santos
- há 9 horas
- 6 min de leitura
O Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) é uma condição psiquiátrica caracterizada por instabilidade emocional persistente, impulsividade, medo intenso de abandono, padrões interpessoais caóticos e comportamentos autolesivos recorrentes. Apesar de frequentemente discutido como um diagnóstico isolado, evidências epidemiológicas demonstram de forma consistente que o TPB raramente ocorre sozinho.

Dados do National Epidemiologic Survey on Alcohol and Related Conditions (NESARC) indicam que aproximadamente 84,8% dos indivíduos com TPB apresentam pelo menos um transtorno psiquiátrico comórbido ao longo da vida (Grant et al., 2008). Trata-se de uma das maiores pesquisas populacionais em psiquiatria, com mais de 43.000 participantes, o que confere elevada robustez metodológica aos achados.
Estudos longitudinais reforçam essa evidência. No McLean Study of Adult Development, acompanhamento prospectivo de 10 anos, observou-se que a maioria dos pacientes com TPB desenvolveu ou manteve múltiplos diagnósticos ao longo do tempo, particularmente transtornos depressivos, transtornos de ansiedade e transtornos relacionados ao trauma (Zanarini et al., 2004).
Portanto, a comorbidade no TPB não é exceção clínica é parte integrante de sua expressão psicopatológica.
Por que o TPB apresenta tantas comorbidades?
O modelo biossocial proposto por Marsha M. Linehan descreve o TPB como resultado da interação entre vulnerabilidade biológica à desregulação emocional e ambientes invalidantes crônicos (Linehan, 1993).
Essa vulnerabilidade implica:
Alta sensibilidade emocional
Respostas afetivas intensas
Retorno lento ao baseline emocional
Impulsividade comportamental
Esses mesmos mecanismos aumentam o risco para o desenvolvimento de outros transtornos psiquiátricos, especialmente quando associados a trauma interpessoal precoce, negligência emocional ou invalidação crônica.
As comorbidades mais frequentes no borderline
1. Transtornos Depressivos
O Transtorno Depressivo Maior é uma das associações mais comuns. Indivíduos com TPB apresentam risco significativamente aumentado para episódios depressivos ao longo da vida (Grant et al., 2008).
Do ponto de vista clínico, é fundamental diferenciar:
Disforia reativa e flutuante, típica do TPB
Episódios depressivos estruturados, com alterações persistentes de sono, energia e funcionamento global
Essa distinção evita medicalização excessiva e melhora a precisão terapêutica.
2. Transtornos de Ansiedade e Transtornos Relacionados ao Trauma
Transtornos de ansiedade e TEPT são altamente prevalentes em pacientes com TPB (Zanarini et al., 2004). A presença de trauma complexo pode intensificar:
Dissociação
Reatividade emocional
Impulsividade
Instabilidade interpessoal
A sobreposição sintomatológica exige avaliação diagnóstica cuidadosa.
3. Transtorno por Uso de Substâncias
A associação entre TPB e transtornos por uso de substâncias é amplamente documentada. Revisões sistemáticas indicam que impulsividade e intolerância ao sofrimento emocional funcionam como mecanismos transdiagnósticos compartilhados (Trull et al., 2018).
O uso de substâncias frequentemente opera como estratégia mal-adaptativa de regulação emocional, tentativa de reduzir estados afetivos intensos e intoleráveis.
4. Transtornos Alimentares
Bulimia nervosa e transtorno de compulsão alimentar são particularmente frequentes (Sansone & Sansone, 2011). Esses quadros compartilham vulnerabilidades centrais relacionadas à impulsividade e à dificuldade de modulação afetiva.
5. Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH)
O Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) é uma comorbidade clinicamente significativa no Transtorno de Personalidade Borderline (TPB).
Estudos indicam que uma proporção relevante de adultos com TPB apresenta histórico compatível com TDAH na infância, com persistência de sintomas de desatenção, impulsividade e desorganização na vida adulta (Philipsen et al., 2008; van Dijk et al., 2012).
Meta-análises sugerem taxas de comorbidade variando entre aproximadamente 20% e 40% em amostras clínicas, dependendo dos critérios diagnósticos utilizados (Matthies & Philipsen, 2016).
TDAH | TPB |
Início na infância | Início tipicamente na adolescência/início da vida adulta |
Impulsividade mais “neurocognitiva” | Impulsividade fortemente ligada a estados emocionais |
Desatenção persistente | Instabilidade afetiva e medo de abandono |
No TDAH, a impulsividade tende a ocorrer em múltiplos contextos de forma mais estável ao longo do tempo. No TPB, a impulsividade é frequentemente reativa a estados afetivos intensos e contextos interpessoais.
O reconhecimento adequado da comorbidade permite planejamento integrado, combinando intervenções psicoterápicas estruturadas (como DBT) com manejo farmacológico específico quando indicado.
Contudo, tratam-se de diagnósticos distintos, com trajetórias desenvolvimentais e prognósticos diferentes.
Diagnóstico Diferencial com Transtorno Bipolar
A confusão diagnóstica entre TPB e transtorno bipolar permanece comum na prática clínica. Conforme argumenta Paris (2017):
No transtorno bipolar, há episódios sindrômicos definidos e alterações sustentadas de energia e sono.
No TPB, as oscilações emocionais são rápidas, intensamente reativas e predominantemente interpessoais.
A diferenciação adequada é essencial para evitar iatrogenia e direcionar tratamento psicoterápico estruturado.
7. Comorbidade com outros Transtornos de Personalidade
Estudos mostram que o TPB raramente ocorre isoladamente. Comorbidades com outros transtornos de personalidade são comuns, especialmente os do Cluster B (emocionalmente intenso/impulsivo) e, em menor grau, Cluster C (ansioso/temeroso) (Zanarini et al., 2004; Tomko et al., 2014).
Cluster B
Transtorno de Personalidade Narcisista (TPN)
Compartilha traços como instabilidade interpessoal e busca de validação.
Diferença crucial: no TPN, o egocentrismo e a grandiosidade são persistentes e menos contextualmente reativos do que no TPB.
Transtorno de Personalidade Antissocial (TPAS)
A comorbidade é particularmente observada em indivíduos com TPB que apresentam comportamentos impulsivos e transgressões sociais.
Estudos sugerem que a presença concomitante de TPAS aumenta o risco de uso de substâncias e comportamento criminal (Paris, 2007).
Transtorno de Personalidade Histriônica (TPH)
A instabilidade emocional e busca por atenção podem se sobrepor a características do TPB, especialmente em contextos interpessoais intensos.
Cluster C
Transtorno de Personalidade Dependente (TPD)
Em alguns casos, indivíduos com TPB podem apresentar padrões de dependência emocional, amplificando o medo de abandono.
Transtorno de Personalidade Evitativa (TPE)
Embora menos frequente, a evitação social e hipersensibilidade à crítica podem coexistir com instabilidade afetiva característica do TPB.
Implicações clínicas
A presença de múltiplos transtornos de personalidade complica o manejo terapêutico devido a sobreposição de sintomas, padrões de comportamento desadaptativos e resistência ao tratamento.
O diagnóstico correto e a diferenciação entre traços situacionais e estruturais são essenciais para a intervenção efetiva.
A DBT, por ser estruturada e baseada em habilidades, é especialmente eficaz para quadros complexos com TPB e comorbidades de personalidade (Linehan, 2015).
Implicações Terapêuticas
A presença de múltiplas comorbidades não indica “caso perdido” ou “complexidade intratável”. Indica necessidade de:
Formulação de caso integrada
Tratamento estruturado
Abordagem baseada em evidências
Manejo sistemático de risco
Ensaios clínicos randomizados demonstram que a Terapia Comportamental Dialética (DBT) reduz significativamente comportamento suicida, autolesãoe hospitalizações psiquiátricas em pacientes com alta desregulação emocional (Linehan et al., 2015).
Intervenções fragmentadas ou não estruturadas tendem a produzir resultados inconsistentes em quadros complexos.
Tratamento Especializado: quando a complexidade exige estrutura
A implementação eficaz de intervenções baseadas em evidências para TPB e quadros associados à desregulação emocional requer:
Formação técnica específica
Supervisão clínica contínua
Fidelidade rigorosa ao modelo terapêutico
Estrutura organizacional adequada para manejo de risco
O DBT Paraná é um centro especializado na aplicação clínica da Terapia Comportamental Dialética, atuando com protocolos estruturados, equipe formalmente capacitada e intervenções fundamentadas em evidências científicas internacionais.
O centro oferece:
Psicoterapia individual baseada em DBT
Treinamento estruturado de habilidades em grupo
Equipe de consultoria entre terapeutas (modelo completo de DBT)
Supervisão clínica especializada
Programas organizados para transtornos de personalidade e quadros de alta desregulação emocional
A abordagem prioriza o desenvolvimento de:
Regulação emocional
Efetividade interpessoal
Tolerância ao sofrimento
Consciência emocional (mindfulness)
Com foco na melhoria sustentada do funcionamento psicossocial, redução de comportamentos de risco e fortalecimento das relações interpessoais.
Diante da complexidade clínica que frequentemente acompanha o TPB, a estrutura do tratamento não é um diferencial, é uma necessidade.
Para informações sobre avaliação diagnóstica, modalidades de atendimento e programas terapêuticos disponíveis, recomenda-se contato direto com a equipe especializada do DBT Paraná.
Referências
Grant, B. F., Chou, S. P., Goldstein, R. B., et al. (2008). Prevalence, correlates, disability, and comorbidity of DSM-IV borderline personality disorder: Results from the Wave 2 National Epidemiologic Survey on Alcohol and Related Conditions. Journal of Clinical Psychiatry, 69(4), 533–545.
Linehan, M. M. (1993). Cognitive-behavioral treatment of borderline personality disorder. Guilford Press.
Linehan, M. M., Korslund, K. E., Harned, M. S., et al. (2015). Dialectical behavior therapy for high suicide risk in individuals with borderline personality disorder. JAMA Psychiatry, 72(5), 475–482.
Matthies, S., & Philipsen, A. (2016). Comorbidity of personality disorders and adult attention deficit hyperactivity disorder (ADHD): Review of recent findings. Current Psychiatry Reports, 18, 33.
Paris, J. (2007). Treatment of borderline personality disorder: A guide to evidence-based practice. Guilford Press.
Paris, J. (2017). The bipolar spectrum: A critical perspective. Harvard Review of Psychiatry, 25(6), 275–284.
Philipsen, A., Limberger, M. F., Lieb, K., et al. (2008). Attention-deficit hyperactivity disorder as a potentially aggravating factor in borderline personality disorder. British Journal of Psychiatry, 192(2), 118–123.
Sansone, R. A., & Sansone, L. A. (2011). Eating disorders and borderline personality: An overview. Innovations in Clinical Neuroscience, 8(3), 14–18.
Tomko, R. L., Trull, T. J., Wood, P. K., & Sher, K. J. (2014). Characteristics of borderline personality disorder in a community sample: Comorbidity, gender, and impairment. Journal of Personality Disorders, 28(5), 734–751.
Trull, T. J., Freeman, L. K., Vebares, T. J., et al. (2018). Borderline personality disorder and substance use disorders: An updated review. Current Psychiatry Reports, 20, 78.
van Dijk, F. E., Lappenschaar, M., Kan, C. C., et al. (2012). Childhood trauma and adult ADHD symptoms in patients with borderline personality disorder. Journal of Nervous and Mental Disease, 200(9), 705–709.
Zanarini, M. C., Frankenburg, F. R., Reich, D. B., & Fitzmaurice, G. (2004). Psychiatric diagnoses in borderline patients and axis II comparison subjects: A 10-year follow-up. Journal of Clinical Psychiatry, 65(10), 1443–1450.
Zanarini, M. C., Frankenburg, F. R., Hennen, J., & Silk, K. R. (2004). The longitudinal course of borderline psychopathology: 6-year prospective follow-up of the phenomenology of borderline personality disorder. American Journal of Psychiatry, 161(2), 281–287.

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