Terapia Comportamental Dialética e Religiosidade Cristã: Interfaces Clínicas, Evidências Empíricas e Considerações Éticas
- Gleidna Santos
- há 6 horas
- 5 min de leitura

A relação entre religiosidade, espiritualidade e psicoterapia tem sido amplamente investigada nas últimas décadas, especialmente no que se refere aos impactos da fé na saúde mental, na regulação emocional e na resiliência psicológica (Koenig, 2012; Pargament, 2007). Nesse contexto, indivíduos cristãos frequentemente expressam preocupações sobre a compatibilidade entre abordagens psicoterapêuticas baseadas em mindfulness, como a Terapia Comportamental Dialética (Dialectical Behavior Therapy; DBT) e suas crenças religiosas.
Perguntas como “essa terapia é compatível com minha fé?” ou “isso pode me afastar de Deus?” não refletem resistência irracional ao tratamento, mas sim a tentativa legítima de preservar valores centrais da identidade do paciente. A literatura contemporânea enfatiza que intervenções psicoterapêuticas eficazes devem ser culturalmente sensíveis e eticamente responsivas às crenças religiosas dos clientes (APA, 2017; Hook et al., 2010).
Este artigo propõe uma análise clínica e científica das interfaces entre a DBT e a religiosidade cristã, destacando convergências conceituais, evidências empíricas e limites éticos da integração entre fé e psicoterapia.
A Terapia Comportamental Dialética: Fundamentos Teóricos e Evidências
A DBT foi desenvolvida por Marsha M. Linehan no final da década de 1980 como um tratamento estruturado para indivíduos com Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), especialmente aqueles com comportamento suicida crônico (Linehan, 1993). Desde então, sua eficácia foi empiricamente validada para diversas condições associadas à desregulação emocional, incluindo transtornos do humor, transtornos alimentares, transtorno de estresse pós-traumático e comportamentos autolesivos (Linehan et al., 2006; Rizvi et al., 2013).
O princípio central da DBT é a dialética, definida como a capacidade de sustentar simultaneamente duas verdades aparentemente opostas, como aceitação e mudança. Um exemplo clássico é:
“Estou fazendo o melhor que posso” e, ao mesmo tempo, “preciso me esforçar para mudar”.
Esse princípio não implica relativismo moral ou negação de valores, mas sim flexibilidade psicológica, conceito amplamente associado à saúde mental (Hayes et al., 2012).
Mindfulness, Aceitação e Espiritualidade: Evidências Científicas
Embora o mindfulness tenha raízes históricas em tradições contemplativas orientais, sua operacionalização clínica na DBT é secular, fenomenológica e empiricamente orientada (Linehan, 2015). Estudos demonstram que práticas de atenção plena aumentam a regulação emocional, reduzem a reatividade e fortalecem o funcionamento executivo, independentemente do enquadramento religioso do indivíduo (Keng et al., 2011).
Importante destacar que pesquisas indicam que o mindfulness pode ser adaptado de forma culturalmente congruente, incluindo contextos cristãos, sem perda de eficácia terapêutica (Rosmarin et al., 2010; Pearce et al., 2015). Nesses casos, a atenção plena é compreendida como presença consciente, autorregulação atencional e consciência não reativa, conceitos compatíveis com práticas cristãs contemplativas historicamente documentadas, como a oração silenciosa e a lectio divina (McGrath, 2013).
Aceitação Radical, Sofrimento e Sentido
A Aceitação Radical, um dos pilares da DBT, refere-se à aceitação plena da realidade tal como ela é, sem julgamento ou resistência improdutiva. Evidências indicam que a aceitação psicológica está associada à redução do sofrimento emocional e ao aumento da resiliência (Shallcross et al., 2010).
Do ponto de vista clínico, aceitar não significa resignar-se ou abdicar da mudança, mas sim reduzir o sofrimento adicional gerado pela negação da realidade. Esse conceito encontra paralelos diretos na literatura sobre coping religioso positivo, no qual a entrega e a confiança em um sentido maior estão associadas a melhores desfechos em saúde mental (Pargament et al., 2011).
Regulação Emocional, Autocontrole e Valores
A DBT não propõe a eliminação das emoções, mas o desenvolvimento de habilidades para compreendê-las, modulá-las e agir de forma coerente com valores pessoais. Estudos neurocientíficos demonstram que a regulação emocional está associada ao aumento da atividade pré-frontal e à redução da impulsividade, fatores críticos para a prevenção de comportamentos autodestrutivos (Silvers et al., 2017).
A literatura em psicologia da religião indica que valores religiosos internalizados, como autocontrole, compaixão e responsabilidade moral, estão associados a maior estabilidade emocional e menor envolvimento em comportamentos de risco (Koenig, King, & Carson, 2012). Assim, quando clinicamente indicado e eticamente conduzido, o alinhamento entre valores espirituais do paciente e objetivos terapêuticos pode fortalecer o engajamento e a eficácia do tratamento.
Integração Ética da Fé na DBT: Limites e Cuidados
É fundamental distinguir integração sensível à fé de substituição da psicoterapia por práticas religiosas. A DBT é um tratamento baseado em evidências e não pode ser descaracterizada por imposições doutrinárias ou exclusões teóricas arbitrárias, sob risco de perda de fidelidade ao modelo (Linehan, 2015).
As diretrizes éticas internacionais enfatizam que a espiritualidade deve ser integrada somente quando alinhada às crenças do cliente, nunca imposta pelo terapeuta (APA, 2017). A fé não substitui habilidades de enfrentamento, mas pode funcionar como um contexto motivacional, identitário e de sentido, potencializando os efeitos do tratamento.
Considerações Finais: O Caminho do Meio e a Coerência Clínica
A DBT propõe o “caminho do meio” como metáfora clínica para a integração entre aceitação e mudança. Do ponto de vista psicológico, esse conceito representa flexibilidade, autorregulação e compromisso com valores. Do ponto de vista espiritual, muitos indivíduos cristãos reconhecem nesse equilíbrio uma vivência coerente entre esforço humano e transcendência.
A literatura científica sustenta que fé e psicoterapia não são, por definição, incompatíveis. Quando conduzida com rigor técnico, sensibilidade cultural e ética profissional, a integração entre DBT e religiosidade pode favorecer não apenas a redução do sofrimento psíquico, mas também uma vivência mais integrada da identidade do paciente.
Compromisso da DBT Paraná com Evidências Científicas e Ética Clínica
Na DBT Paraná, nosso trabalho é fundamentado rigorosamente nas evidências científicas internacionais que sustentam a Terapia Comportamental Dialética como um tratamento eficaz, estruturado e eticamente validado. Seguimos os protocolos originais e as diretrizes atualizadas da DBT, conforme estabelecidas por Marsha M. Linehan e pela literatura científica contemporânea, preservando a fidelidade ao modelo e o compromisso com a prática baseada em evidências.
Ao mesmo tempo, reconhecemos que crenças religiosas, espirituais e valores pessoais fazem parte da identidade de muitos pacientes e influenciam diretamente sua motivação, sentido de vida e engajamento terapêutico. Por isso, adotamos uma postura clínica ética, respeitosa e culturalmente sensível, na qual a fé do paciente pode ser acolhida quando e somente quando fizer parte de sua experiência subjetiva, sem imposições, sem doutrinação e sem substituição do tratamento psicológico por práticas religiosas.
A DBT Paraná não promove adaptações ideológicas da DBT nem práticas desvinculadas da ciência. Nosso compromisso é oferecer um cuidado clínico sério, responsável e humano, no qual a psicoterapia baseada em evidências caminha lado a lado com o respeito à singularidade de cada pessoa. Acreditamos que ciência, ética e sensibilidade clínica não competem entre si, elas se fortalecem quando bem integradas.
Referências
American Psychological Association. (2017). Ethical principles of psychologists and code of conduct. APA.
Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2012). Acceptance and commitment therapy: The process and practice of mindful change (2nd ed.). Guilford Press.
Hook, J. N., Worthington, E. L., Davis, D. E., Jennings, D. J., Gartner, A. L., & Hook, J. P. (2010). Empirically supported religious and spiritual therapies. Journal of Clinical Psychology, 66(1), 46–72. https://doi.org/10.1002/jclp.20626
Keng, S. L., Smoski, M. J., & Robins, C. J. (2011). Effects of mindfulness on psychological health. Clinical Psychology Review, 31(6), 1041–1056.
Koenig, H. G. (2012). Religion, spirituality, and health: The research and clinical implications. ISRN Psychiatry.
Koenig, H. G., King, D. E., & Carson, V. B. (2012). Handbook of religion and health (2nd ed.). Oxford University Press.
Linehan, M. M. (1993). Cognitive-behavioral treatment of borderline personality disorder. Guilford Press.
Linehan, M. M. (2015). DBT skills training manual (2nd ed.). Guilford Press.
Linehan, M. M., et al. (2006). Dialectical behavior therapy for patients with borderline personality disorder and drug-dependence. American Journal on Addictions, 15(4), 279–292.
Pargament, K. I. (2007). Spiritually integrated psychotherapy. Guilford Press.
Pargament, K. I., et al. (2011). Religious coping methods as predictors of psychological, physical and spiritual outcomes. Journal of Health Psychology, 16(6), 933–946.
Pearce, M. J., et al. (2015). Religious adaptations of mindfulness-based interventions. Journal of Clinical Psychology, 71(3), 290–304.
Rizvi, S. L., et al. (2013). DBT beyond borderline personality disorder. Current Psychiatry Reports, 15(2), 1–10.
Rosmarin, D. H., et al. (2010). A randomized controlled evaluation of a spiritually integrated treatment for subclinical anxiety. Journal of Anxiety Disorders, 24(7), 778–785.
Silvers, J. A., et al. (2017). The neuroscience of emotion regulation. Developmental Cognitive Neuroscience, 25, 4–17.

.png)
%2008_38_52_08b4b42f.jpg)



Comentários